F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

domingo, 15 de abril de 2018

Sobre viver, aprender e... pedalar*

Ed Ferreira/Estadão

“Só sei que nada sei”, já dizia Sócrates na Grécia Antiga, ensinando-nos a ser mais conscientes de nossa ignorância, ou de que não podemos saber tudo, muito menos tudo sobre tudo. Aliás, dizem que não foi bem assim que o velho filósofo falou (nem sei se era mesmo velho quando falou), mas que importa? E aí me lembrei de outra frase bem menos famosa, e bem mais atual, esta atribuída a Melânia Ludwig (digitei a frase e fui pescar no Google a autoria), que quem sabe em um belo dia, quem sabe até se ao pé de uma macieira como Newton (mas não há notícia de que nessa hora uma maçã tenha vindo ao solo), afirmou que “a gente está sempre aprendendo, porque viver é uma aprendizagem constante”. Interessante é que esta frase é tão comum, mas tão comum, que eu a conhecia, sabe-se lá como — talvez meio que por osmose —, o que significa que essa mulher né fraca, não. Ou é?

Ok, tudo bem, fui à Grécia e acabei na Melânia (se enxergarem algum duplo sentido, asseguro, não foi a minha intenção), passando por maçãs e aprendizagem por subconsciência, para constatar que ambos estão certos. Empiricamente certos! Experiências pessoais me deixam à vontade para assim asseverar (esta, reconheço, é feia; parece nome de um velho avarento e cruel: “seu” Assevero).

Venho aprendendo, pois. Aprendi, por exemplo, que um dos substantivos mais bonitos da nossa maltratada língua, e mais identificados com o objeto a que dá nome (bicicleta), fora irremediavelmente substituído por uma palavra estrangeira, pra variar inglesa: bike. Ora, a bicicleta, você há de concordar, não poderia mesmo ter outro nome que não bicicleta: magra, delicada, sinuosa. Mas se eu não aprender a dizer bike, daqui a algum tempo corro o risco do vendedor não me entender. Nem ninguém com menos de vinte e poucos anos.

Aprendi, também, que “pedalada fiscal”, expressão a que fui apresentado há pouco tempo pelaTa grande imprensa nacional, não era uma reunião de bikers (ciclista igualmente vem caindo em desuso) que usavam bicicletas como meio de transporte enquanto exercitavam (sem trocadilho) seu mister fiscalizatório. Tipo os fiscais de renda, do trabalho, da alfândega, de jogo de roleta, ou mesmo os fiscais da vida alheia, conhecidos como fofoqueiros, o que me remete à fofoca, mais uma palavra perfeita que a minha fiscalização não pode deixar passar sem registro: fofoca é o melhor substantivo para designar a fofoca, né não? Tá, mexerico também é ótimo.

“Pedalada fiscal” seria, na verdade (olha o Google, de novo), uma “operação orçamentária” não prevista na legislação do país, realizada por um governo, via da qual o repasse de dim-dim aos bancos públicos e privados eram adiados para aliviar a situação de caixa em determinada época. E aí de cara já senti que a velha bicicleta, não bastasse o assassínio sofrido pelos pés de seus próprios compatriotas (digo, pela boca), estava agora meio que sendo exumada para submissão a escracho público. Afinal, praticar pedaladas (fiscais) não seria legal, no sentido de massa, maneiro, bacana. E no outro sentido também, asseguravam alguns. E embora não se deem na magrela (as tais pedaladas), não dá pra desvincular pedalada, qualquer que seja, da magra. Mas isto foi só um tempo. Estranhamente, logo deixou de ser ilegal, e agora até o termo já caiu em desuso. Vida brevíssima. Muito mais curta do que a crença de que ovo é ruim para o colesterol, margarina é melhor que manteiga, e sexo... Não, tá tudo certo com sexo. Ufa! Dar suas pedaladas também pode. Mas melhor que seja só na bicicleta ou no máximo nos pedalinhos. A não ser que você esteja recém-operado de hemorroida ou às vésperas do PSA.


*Tb postado em https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/03/sobre-viver-aprender-e-pedalar-dilma.html

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O ano de 2016 (para mim)*



pataxocartoons.blogspot.com.br/
Tenho alguma dificuldade para achar 2016 um ano muito ruim. Claro que para o país foi terrível. Política e economicamente desastroso, embora a economia tenha assim sido em boa parte pela instabilidade política adrede preparada e levada a cabo pelos opositores ao governo deposto: mídia hegemônica partidária, parcela do judiciário e de membros do ministério público e da polícia federal, capital financeiro e industrial interno e externo, governos estrangeiros — EUA à frente —, políticos corruptos e descontentes, “legitimados” pelo apoio nas ruas de uma classe média em grande parte manipulada pela mesma mídia, ou que simplesmente saiu do armário onde se fechara envergonhada desde 1964, para fechar o ciclo. A presidenta legitimamente eleita, digna (e inocente) foi deposta por um golpe midiático-político-jurídico. Ali ficou claro que o Brasil permanecia sendo uma republiqueta de bananas. Todo o respeito internacional se esvaiu. Em nome do combate à corrupção, mas em verdade atendendo a interesses econômicos do capital internacional, uma caça seletiva a políticos e empresários se instalou, destruindo propositadamente nossas principais empresas e promovendo prejuízos irrecuperáveis à economia nacional.

Por outro lado, mas ainda nesse sentido, a morte de figuras exponenciais brasileiras e estrangeiras (Ferreira Gullar, Fidel Castro, Carlos Alberto Torres, Ivo Pitanguy, Guilherme Karan, Hector Babenco, Evaristo de Moraes Filho, Muhammad Ali, Cauby Peixoto, Tereza Rachel, Umberto Eco, David Bowie, Gustavo Bueno Martinez, entre tantos outros), as mortes de milhares de inocentes na guerra da Síria e em outras instaladas em centros de interesse do capital, apoiadas, quando não patrocinadas ou deflagradas pelo império estadunidense e seus companheiros na Europa, além dos atos de revanche praticados contra inocentes na Alemanha e na França, para ficar só nesses exemplos, tornaram o país e o mundo mais pobres, perigosos, intolerantes, fascistas, racistas, xenofóbicos e misóginos. O ódio está em cada esquina, às vezes dentro da própria casa do indivíduo.

Pessoalmente, sob o aspecto particular, mesmo, o ano de 2016 foi ruim principalmente porque a minha mãe sofreu um AVC, felizmente não hemorrágico. É um quadro horrível e imensamente triste de se ver. Naquele momento eu tive medo, muito medo, um medo espetacular de que ela viesse a falecer ou que a doença provocasse sequelas que a fizessem sofrer. Felizmente, estas, evidentes e lastimáveis, não promoveram a destruição e sofrimento temidos. Sim, a minha mãe tão querida hoje está numa cama em seu quarto — reformado às pressas, meio como quarto de hospital, para aguardá-la nessa nova fase de sua vida —, e assim deverá permanecer pelo tempo (longo, por suposto) que vier a ficar conosco, necessitando de ajuda de terceiros para realizar as mais triviais e básicas funções, negando-se até a sentar na cadeira de rodas. “É ruim, André”, diz. E não é uma cadeira ruim.

sábado, 9 de julho de 2016

Respeitem a democracia*


http://www.controversia.com.br/ 
Outro dia estava aqui refletindo com meus teimosos botões. Devaneios tolos, claro.

Desde o dia da aclamação de sua re-eleição a presidenta teve seu mandato contestado. Sofreu campanha diária movida pela oposição derrotada, pautada pelos principais grupos midiáticos do país e pela Operação Lava Jato — que a despeito de sua importância serviu, não raro, ao objetivo político de desgastar o PT, Lula e o governo. No centro (politicamente à direita), um cavalo de troia, Eduardo Cunha. Em suas entranhas, partidos fisiológicos. Contrariado pelo PT — que conferiu os votos faltantes para o seu processamento pela Comissão de Ética ―, EC aceita um pedido de impeachment fundado em fatos que NÃO se configuram crime de responsabilidade, alguns dos quais sequer praticados pela presidenta (o Plano Safra, as tais pedaladas fiscais). Iniciou-se o golpe. Qualquer um, intelectualmente honesto, sabe que o é. EC chantageou, perdeu e se vingou. Aos 17/04, a Câmara — num espetáculo macabro e vergonhoso —, admite o processo e o envia ao Senado. O julgamento, propriamente dito. Montesquieu remexe-se.

Antes do meliante-psicopata aceitar o pedido de impeachment, aos 15/12/2015 a PGR pede ao STF o seu afastamento. O ministro Teori, inexplicavelmente, demora quase cinco meses para deferi-lo, embora afirme que EC é “um pejorativo que conspira contra a própria dignidade da instituição por ele liderada.” A omissão do STF, aliada ao comportamento inadequado de alguns de seus pares, entre outros atos (prisão imediata de Delcídio e silêncio quanto a Jucá, e obstrução da posse de Lula são exemplos), despertam na sociedade a desconfortável suspeita de parcialidade. Montesquieu fere os pés, joelhos e cotovelos, retorcendo-se.

Esfacelou-se o seu sistema de freios e contrapesos. O legislativo usurpa um mandado popular legitimamente conferido ao chefe de outro poder, o executivo. O judiciário, que deveria guardar a Carta, assiste, sem pudor e reação, à sua desonra e o assassínio do estado de direito. A democracia agoniza.

Ocorre que a presidenta, embora afastada, continua presidenta. O golpe é manifesto, mas ainda inconcluso. A Suprema Corte, ou o Senado, podem repeli-lo. Mas e se não o fizerem? Deve a vítima resignar-se? Seria legítima eventual resistência? Teria condições objetivas, instrumentos e vontade política para fazê-lo?

Bem, meros devaneios que sejam (e são), barbas de molho. Não se avilta a democracia.

*Escrito em 13.06.2016

O golpe não é surreal*



http://altamiroborges.blogspot.com.br/
 1983-1984. O país saía da ditadura militar e o povo, na generalidade de suas classes sociais, clamava nas ruas por eleições diretas. Parecíamos, então, todos democratas (ou quase todos, claro). A Emenda das Diretas Já (Emenda Dante de OIiveira), porém, foi rejeitada pelo Congresso.


Assim, as primeiras eleições diretas para presidente, após o regime ditatorial, somente se dariam no ano de 1989, sob a vigência da nova Constituição do país, promulgada em 1988.


Três eleições se sucederam. As esquerdas foram derrotadas em todas. Até que em 2002, Lula vence. E novamente a de 2006. E elege a sua sucessora, Dilma Rousseff, na eleição de 2010, que por sua vez reelege-se em 2014.


Desde quando eleitos (Lula até desde antes), são diuturnamente atacados pela grande mídia nacional. Tiveram a oportunidade de democratizar e regulamentar os meios de comunicação, a exemplo dos EUA e a própria Grã-Bretanha. Não o fizeram. Mal tentaram. Ou foram muito ingênuos, de pensar que esse pessoal algum dia lhes daria trégua, ou se acovardaram. Seu maior erro. Subestimaram a força de uma imprensa milionária, que mente e manipula para salvaguardar seus interesses. Há uma só voz. Não há democracia na mídia brasileira.


Em seus governos (2002-2015), o PIB saltou de R$ 1,48 trilhão para R$ 5,90 trilhões; o PIB per capita, de R$ 7,6 mil, para R$ 28,8 mil; a dívida líquida do setor público, de 60% do PIB, para 33,6% do PIB; o lucro do BNDES, de R$ 550 milhões, para R$ 6,20 bilhões; o do BB, de R$ 2 bilhões, para R$ 14,40 bilhões... Todas as classes sociais ganharam com esses governos. A mais pobre mais. Natural.


A liberdade de expressão e manifestação foi garantida. Os principais instrumentos de combate a corrupção foram nesses governos criados. E junto com as instituições já existentes (MPF e PF), puderam atuar livremente pela primeira vez em suas histórias. Entretanto, ignorantes ou mal intencionados usaram essa liberdade para ir às ruas exigir sua saída. Não são democratas. Não respeitam a democracia, embora decerto os mais velhos lá estivessem pedindo Diretas Já em 1984.



À cínica alegação de prática de crime de responsabilidade, a presidenta eleita pelo povo foi apeada do poder por uma maioria prenhe de cabras de peia. Toda sorte de injustiças e ilegalidades lhe têm sido impingidas, inclusive pelo próprio judiciário. O país, sob esse governo interino, é uma afronta à dignidade e à cidadania. Beira o surreal. Mas é real. Porque o golpe é real.

*Escrito em 06.06.2016

quarta-feira, 1 de junho de 2016

UMA ZONA!*

*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS

Sabe uma esculhambação? Pois é como o Brasil pós-golpe está. Fosse enumerar todos os atos ou fatos que se desnudaram desde o afastamento (temporário) da presidenta ─ aquela a quem os golpistas (ou que os apoiam) cinicamente atribuem a prática de crime de responsabilidade ─, não haveria incenso que amenizasse o odor. É um show de hipocrisia, canalhice e covardia para inglês (e toda a europa e o resto do mundo) ver(em) ─ e repercutir(em).

Os jornais mais respeitados do planeta acusam que o impeachment é golpe. Só a grande mídia nacional, até porque agente intere$$ada no golpe, postou-se coerentemente com o que é: golpista desde o seu DNA. A reação da mídia internacional e das massas populares amplificou-se com as gravações de Jucá e Sarney, e agora com o Fabiano, Min da Transparência (ironia das ironias). O golpe, que já era facilmente visualizado, tornou-se escancarado. Países já se negam a reconhecer um eventual governo Temer, ou dão sinais assim o farão. Em qualquer nação para onde vá autoridade brasileira, é estridentemente achincalhada (ou ignorada). Foi assim com Serra, com FHC, com magistrados. Um horror! Uma vergonha!

Acabaram com o respeito e o reconhecimento internacional que conquistamos nos últimos treze anos. Voltamos a ser uma republiqueta latino-americana de instituições corruptas e golpistas. Este crime que estão impingindo ao país não tem perdão. À frente, exceções de sempre, uma cambada de parlamentares corruptos que golpeou a democracia para apear do poder a presidenta e, assim, confessadamente trancar a Lava Jato, num enorme acordo que envolveria as principais instituições da renascida republiqueta.


O STF, por sua vez, vem demonstrando, por suas atitudes e omissões, não apenas estar acovardado, como disse Lula, mas cúmplice do golpe. O mesmo STF que lhe cuspiu fogo — doído porque tachado de covarde em conversa privada criminosamente vazada para a mídia pelo juiz de Curitiba sintomaticamente às vésperas da votação do pedido de impeachment e com farta repercussão midiática —, que impediu a posse do ex-presidente como ministro do governo ora deposto, e que incontinenti determinou a prisão do covarde Delcídio, silencia face à nomeação de oito ministros investigados pela Lava Jato, e sobre o seu próprio envolvimento no golpe, atribuído pelo Jucá. Gilmar Mendes dispensa comentários. Houvesse justiça já estaria fora do Supremo. Mas o Brasil deixou de ser um estado democrático e de direito.

terça-feira, 31 de maio de 2016

O silêncio ensurdecedor das panelas*

*Tb PB na GAZETA DE ALAGOAS de 25.05.2016 e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB-AL

A campanha anti-PT tem dois viés fundamentais: a direita, usando com escancarada hipocrisia o discurso anticorrupção, e os paridos pela manipulação midiática (os “inocentes úteis”).

Frente ao horror que desde o afastamento da presidenta se testemunha, avulta ensurdecedor o silêncio (envergonhado ou cúmplice) dos autoalardeados patriotas, paneleiros travestidos com a camisa da CBF (Movimento Brasil “Livre”, suprema ironia, à frente).

Na linha de frente do golpe, o presidente interino traidor, conspirador e ficha-suja. Nomeou ministério de homens brancos, e líder réu em ações penais no STF ─ investigado em inquéritos (um por tentativa de homicídio), além de condenado por improbidade administrativa. Ao menos sete de seus ministros são investigados pela Justiça, alguns pela Lava Jato. Extinguiu Ministérios da Cultura (voltou atrás depois de muita pressão), das Mulheres, da Previdência Social e da Igualdade Racial, e já acena com a redução de vários programas sociais, fim da aposentadoria, privatização, extinção do SUS, entrega do Pré-Sal ao capital internacional, desarticulação do MERCOSUL e, pasmem, do BRICS. Para a imprensa internacional, o país sofreu um golpe. Vergonha!

Aí eis que, hoje (23/05), pelo vazamento de conversa gravada semanas antes do impeachment, entre o Ministro Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, o golpe restou escancarado. Não vou transcrevê-la (está na internet). Repercuto, apenas: onde eles dizem que com a Dilma não haveria jeito de barrar a Lava Jato! “Tem que ter um impeachment”, disse um. “Tem que ter o impeachment. Não tem saída”, reforçou o outro. Aécio, segundo eles, seria o primeiro a ser “comido” pela Lava Jato. O STF foi incluído no “grande acordo” para o golpe. Lembrei-me do depoimento do insuspeito Procurador Carlos Fernando, da Lava Jato, que em final de março afirmou que o PT jamais interferira na PF e no MPF. Por muito menos, Delcídio foi preso e perdeu o mandato. Aliás, Cunha, amigo de Temer, segue solto.

Aí, as perguntas que não querem calar: se eram anticorruptos e patriotas os paneleiros verde-amarelos da CBF, por que diabos não se ouve agora o bater de suas panelas? Envergonhados, porque se sabem agora manipulados midiáticos? Hipócritas?

Ora, cúmplices do golpe, o mínimo que lhes restaria seria desculparem-se com aquela sobre quem não paira a mínima mancha de corrupção. Ou continuem mudos. Porque o golpe... já era.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Cavalo de troia*

cartamaior.com.br
Às vezes me pego pensando se é tudo mesmo fruto da manipulação midiática. Claro que me refiro apenas à influência daquela àqueles que a gente compreende como inocentes úteis. Aí não se incluem, naturalmente, os corruptos empedernidos, que necessitavam apear do poder os primeiros governos que lhe causaram embaraços, nem grande parcela da classe média, que finalmente pôde expor, sem o mais mínimo constrangimento, todo o preconceito, racismo, misoginia, fascismo, elitismo e ignorância que compõem sua alma pequena, tampouco os da classe alta, pelas mesmas razões. Penso que manipulados genuínos são somente aqueles que, agora, podem perceber a furada onde se efetivamente se meteram e pela qual são co-responsáveis.

Como se esquecer de manifestações hipocritamente irresignadas, forjadas em teses jurídicas e políticas construídas para fundamentar a “legítima” insurgência contra a nomeação de Lula para o ministério? Desde aquela que ele estaria sob investigação na Operação Lava-Jato (principal instrumento da direita togada contra os governos populares que teimavam, atrevidamente, em ser eleitos a cada eleição) — pela suposta propriedade de um sítio em Atibaia, um apartamento no Guarujá, dois pedalinhos e uma canoa —, até a de que estaria a pretender-se livrá-lo da espada da justiça, como se o STF fosse outra coisa (verdade que o STF é uma decepção em si mesmo, quando sob sua empáfia, covardia e parcialidade estaria o Lula).


Entretanto, consumado temporariamente o golpe, eis que o presidente em exercício, entre outras ainda mais terríveis e sugestivas ações do porvir (e do que já se põe), nomeia pelo menos sete ministros sob investigação na mesma Lava Jato, sob suspeitas graves de desvio de dinheiro público, para enriquecimento pessoal, inclusive. Os pretensiosamente (ou cinicamente) autodenominados homens e mulheres de bem da nossa sociedade, defensores da moral, da ética e dos bons costumes, mosqueteiros anticorrupção, com suas camisas verde-amarelas da CBF a cobrir-lhes o peito patriótico, hoje já de volta à naftalina chique de seus armários, porém, silenciam. Suas panelas permanecem nas mãos das criadas, legítimas posseiras, seus patos amarelos resistem, murchos, aguardando o momento do avanço irresistível sobre o erário, e esses tratam de lustrar sua cara de pau com o velho óleo de peroba, sob o olhar estupefato e envergonhado dos verdadeiros manipulados que lhe serviram de cavalo. De tróia.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Que pretendes, Supremo?*

tijolaco.com.br
*Tb pub na GAZETA DE ALAGOAS, de 11/05/2016, e nos  sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB/AL

Pretendes preencher, das velhas e repugnantes tintas da capitulação, da covardia e da vergonha tua história recente em desfavor da democracia, que já se encontrava por desbotar-se pelo tempo, desde a vossa desonrosa participação no Golpe de 64?

O que buscas agora, oh, Supremo!? Os holofotes da mídia, justamente dessa imprensa corrupta e golpista, como se deu no espetacular julgamento da Ação Penal 470, assim por ti chamada para tentar dar uma conotação de imparcialidade ao escabroso “julgamento” que escreveste à semelhança das mais ordinárias obras de ficção?

Oh, Supremo! Estás ao lado — nem a favor, nem contra! —, como poder independente e harmônico com os demais, de uma presidenta contra a qual não há uma só mácula? Ou marchando politicamente contra ela, ao lado dessa oposição que desmoraliza o cinismo em sua mais sórdida essência? Estás, acaso, oh, Supremo, contra uma presidenta de quem não se pode, honestamente, atribuir a prática de qualquer crime de responsabilidade? Diz-me, Supremo! Confessa-te para mim e para os que te pagam teus vencimentos! Despe-te, ao menos desta vez singular, da toga que te impregna da vaidade dos fracos, do despotismo com que te alimentas e faz por confundir-te autoridade com tirania... Ou então a enverga com dignidade, honra a tua razão de ser e te elevas ao cume da justiça que esperam de ti os jurisdicionados, e as leis a cuja observância tu deves resignar-te...

Por outro lado, tu sabes, Supremo — mesmo aquele que, entre os seus, sordidamente age sem o menor resquício de pudor, como membro fosse de agremiação político-partidária de oposição, consoante é cônscio qualquer um que não seja irremediado desonesto intelectual —, que o processo golpista em voga e em vias de concretizar-se, travestido de impeachment, foi aceito, presidido e conduzido por um patifório com mandato, eleito decerto por pulhas iguais, em represália ao partido de uma mulher honesta, digna, valente, legitimamente eleita por mais de 54 milhões de pessoas, e que em tudo desse destoa e se diferencia. Tu praticamente assim o disseste ao recentemente afastar o malfeitor de suas funções e de seu mandato! Mas por que não o fizeste antes?, como a acumpliciar-se desonrosamente com seus desmandos — esta a impressão quase inabalável que fica entre nós... Por que, Supremo?


Envergonha-te, oh, Supremo! E escreve a tua história, desta vez, com as matizes de esperança e fé que forjaram a sua criação. As cores da Justiça! Ainda há tempo.

Não é contra a corrupção*

*Pub na GAZETA DE ALAGOAS de 04/05/2016, e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB/AL

Não é contra a corrupção, é por hipocrisia.

Não é contra a corrupção, é por desonestidade intelectual.

Não é contra a corrupção, é por ideologia.

Não é contra a corrupção, é por cinismo.

Não é contra a corrupção, é contra os pobres.

Não é contra a corrupção, é contra a classe trabalhadora.

Não é contra a corrupção, é o exercício pleno da luta de classes.

Não é contra a corrupção, é a favor dos privilegiados e seus privilégios.

Não é contra a corrupção, é contra o aumento real do salário mínimo.

Não é contra a corrupção, é pelo fim das políticas e seus programas sociais; é contra o PROUNI, FIES, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Brasil sem Miséria, Luz para Todos, PRONATEC, ENEM, PAC, Mais Médicos.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

REPÚBLICA DE BANANAS*

*Tb pub na GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB-AL

Meu país sempre foi o do futuro. Salvo para a espoliação de nossas riquezas e economia pelos mesmos dirigentes e poderosos capitalistas que aplaudiam o nosso futebol e rebolavam ao som dos nossos tamborins, sobre o mais éramos solenemente desconsiderados.

Era o tempo em que um FMI mandava e desmandava em nossa combalida economia, que o pequeno número de turistas brasileiros no exterior era lá ignorado ou desrespeitado, que a imensa maioria do povo brasileiro passava fome. Um tempo em que ministro de estado tirava sapatos para entrar em país “amigo”; em que um vaidoso presidente era um banana subserviente e vendilhão de nossa pátria. Ninguém nos levava a sério.

De 2003 pra cá nos tornamos uma democracia respeitada e pujante economia mundial. Construímos laços de amizade e comércio também com países então solenemente ignorados, com quem criamos um banco, o BRICS. Nossa infra-estrutura, a educação e a saúde sofreram avanços indiscutíveis, apesar das seculares carências ainda presentes. As instituições, pela primeira vez na história, estão livres para combater a corrupção, até seletivamente, contra o próprio governo. Saímos, finalmente, do Mapa da Fome (ONU).

Forças econômicas e políticas poderosas, porém, que jamais aceitaram essas mudanças, aqui representadas pela mídia oligárquica em conluio com setores da justiça e da polícia, promovem, em toda a América Latina, ataques diuturnos contra os respectivos governos.

Utilizando-se de procedimento previsto na Constituição (impeachment), busca-se apear do poder uma presidenta legitimamente eleita, sem a mínima base jurídica. Na linha de frente, parlamentares acusados de corrupção, que bem espelham o perfil dos seus eleitores recém-saídos do armário. Contra a presidenta não há nada. Nada.

Ao mesmo tempo, agora não se houve mais falar em Lava Jato. Como nunca se ouviu falar em Mensalão do PSDB. O falastrão de Curitiba calou-se. Bandidos, e seu chefe, continuam impunes, sob a benção acovardada do STF. Toda a grande imprensa internacional, diferentemente dos pilantras da grande mídia tupiniquim, condena o golpe travestido de impeachment. Esses bandidos eleitos, e os que os aplaudem, ou com eles hipocritamente marcham, submetem o país a uma vergonha que dói n’alma. Todo o respeito ineditamente conquistado esvaiu-se.

Estamos voltando à condição que sempre desejaram os poderosos: a de uma república de bananas. Mas solamente para o povo, seu eterno macaco.