F R A S E

Pablo Neruda:

"A pessoa certa é a que está ao seu lado nos momentos incertos."


terça-feira, 24 de maio de 2016

Cavalo de troia*

cartamaior.com.br
Às vezes me pego pensando se é tudo mesmo fruto da manipulação midiática. Claro que me refiro apenas à influência daquela àqueles que a gente compreende como inocentes úteis. Aí não se incluem, naturalmente, os corruptos empedernidos, que necessitavam apear do poder os primeiros governos que lhe causaram embaraços, nem grande parcela da classe média, que finalmente pôde expor, sem o mais mínimo constrangimento, todo o preconceito, racismo, misoginia, fascismo, elitismo e ignorância que compõem sua alma pequena, tampouco os da classe alta, pelas mesmas razões. Penso que manipulados genuínos são somente aqueles que, agora, podem perceber a furada onde se efetivamente se meteram e pela qual são co-responsáveis.

Como se esquecer de manifestações hipocritamente irresignadas, forjadas em teses jurídicas e políticas construídas para fundamentar a “legítima” insurgência contra a nomeação de Lula para o ministério? Desde aquela que ele estaria sob investigação na Operação Lava-Jato (principal instrumento da direita togada contra os governos populares que teimavam, atrevidamente, em ser eleitos a cada eleição) — pela suposta propriedade de um sítio em Atibaia, um apartamento no Guarujá, dois pedalinhos e uma canoa —, até a de que estaria a pretender-se livrá-lo da espada da justiça, como se o STF fosse outra coisa (verdade que o STF é uma decepção em si mesmo, quando sob sua empáfia, covardia e parcialidade estaria o Lula).


Entretanto, consumado temporariamente o golpe, eis que o presidente em exercício, entre outras ainda mais terríveis e sugestivas ações do porvir (e do que já se põe), nomeia pelo menos sete ministros sob investigação na mesma Lava Jato, sob suspeitas graves de desvio de dinheiro público, para enriquecimento pessoal, inclusive. Os pretensiosamente (ou cinicamente) autodenominados homens e mulheres de bem da nossa sociedade, defensores da moral, da ética e dos bons costumes, mosqueteiros anticorrupção, com suas camisas verde-amarelas da CBF a cobrir-lhes o peito patriótico, hoje já de volta à naftalina chique de seus armários, porém, silenciam. Suas panelas permanecem nas mãos das criadas, legítimas posseiras, seus patos amarelos resistem, murchos, aguardando o momento do avanço irresistível sobre o erário, e esses tratam de lustrar sua cara de pau com o velho óleo de peroba, sob o olhar estupefato e envergonhado dos verdadeiros manipulados que lhe serviram de cavalo. De tróia.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Que pretendes, Supremo?*

tijolaco.com.br
*Tb pub na GAZETA DE ALAGOAS, de 11/05/2016, e nos  sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB/AL

Pretendes preencher, das velhas e repugnantes tintas da capitulação, da covardia e da vergonha tua história recente em desfavor da democracia, que já se encontrava por desbotar-se pelo tempo, desde a vossa desonrosa participação no Golpe de 64?

O que buscas agora, oh, Supremo!? Os holofotes da mídia, justamente dessa imprensa corrupta e golpista, como se deu no espetacular julgamento da Ação Penal 470, assim por ti chamada para tentar dar uma conotação de imparcialidade ao escabroso “julgamento” que escreveste à semelhança das mais ordinárias obras de ficção?

Oh, Supremo! Estás ao lado — nem a favor, nem contra! —, como poder independente e harmônico com os demais, de uma presidenta contra a qual não há uma só mácula? Ou marchando politicamente contra ela, ao lado dessa oposição que desmoraliza o cinismo em sua mais sórdida essência? Estás, acaso, oh, Supremo, contra uma presidenta de quem não se pode, honestamente, atribuir a prática de qualquer crime de responsabilidade? Diz-me, Supremo! Confessa-te para mim e para os que te pagam teus vencimentos! Despe-te, ao menos desta vez singular, da toga que te impregna da vaidade dos fracos, do despotismo com que te alimentas e faz por confundir-te autoridade com tirania... Ou então a enverga com dignidade, honra a tua razão de ser e te elevas ao cume da justiça que esperam de ti os jurisdicionados, e as leis a cuja observância tu deves resignar-te...

Por outro lado, tu sabes, Supremo — mesmo aquele que, entre os seus, sordidamente age sem o menor resquício de pudor, como membro fosse de agremiação político-partidária de oposição, consoante é cônscio qualquer um que não seja irremediado desonesto intelectual —, que o processo golpista em voga e em vias de concretizar-se, travestido de impeachment, foi aceito, presidido e conduzido por um patifório com mandato, eleito decerto por pulhas iguais, em represália ao partido de uma mulher honesta, digna, valente, legitimamente eleita por mais de 54 milhões de pessoas, e que em tudo desse destoa e se diferencia. Tu praticamente assim o disseste ao recentemente afastar o malfeitor de suas funções e de seu mandato! Mas por que não o fizeste antes?, como a acumpliciar-se desonrosamente com seus desmandos — esta a impressão quase inabalável que fica entre nós... Por que, Supremo?


Envergonha-te, oh, Supremo! E escreve a tua história, desta vez, com as matizes de esperança e fé que forjaram a sua criação. As cores da Justiça! Ainda há tempo.

Não é contra a corrupção*

*Pub na GAZETA DE ALAGOAS de 04/05/2016, e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB/AL

Não é contra a corrupção, é por hipocrisia.

Não é contra a corrupção, é por desonestidade intelectual.

Não é contra a corrupção, é por ideologia.

Não é contra a corrupção, é por cinismo.

Não é contra a corrupção, é contra os pobres.

Não é contra a corrupção, é contra a classe trabalhadora.

Não é contra a corrupção, é o exercício pleno da luta de classes.

Não é contra a corrupção, é a favor dos privilegiados e seus privilégios.

Não é contra a corrupção, é contra o aumento real do salário mínimo.

Não é contra a corrupção, é pelo fim das políticas e seus programas sociais; é contra o PROUNI, FIES, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Brasil sem Miséria, Luz para Todos, PRONATEC, ENEM, PAC, Mais Médicos.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

REPÚBLICA DE BANANAS*

*Tb pub na GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB-AL

Meu país sempre foi o do futuro. Salvo para a espoliação de nossas riquezas e economia pelos mesmos dirigentes e poderosos capitalistas que aplaudiam o nosso futebol e rebolavam ao som dos nossos tamborins, sobre o mais éramos solenemente desconsiderados.

Era o tempo em que um FMI mandava e desmandava em nossa combalida economia, que o pequeno número de turistas brasileiros no exterior era lá ignorado ou desrespeitado, que a imensa maioria do povo brasileiro passava fome. Um tempo em que ministro de estado tirava sapatos para entrar em país “amigo”; em que um vaidoso presidente era um banana subserviente e vendilhão de nossa pátria. Ninguém nos levava a sério.

De 2003 pra cá nos tornamos uma democracia respeitada e pujante economia mundial. Construímos laços de amizade e comércio também com países então solenemente ignorados, com quem criamos um banco, o BRICS. Nossa infra-estrutura, a educação e a saúde sofreram avanços indiscutíveis, apesar das seculares carências ainda presentes. As instituições, pela primeira vez na história, estão livres para combater a corrupção, até seletivamente, contra o próprio governo. Saímos, finalmente, do Mapa da Fome (ONU).

Forças econômicas e políticas poderosas, porém, que jamais aceitaram essas mudanças, aqui representadas pela mídia oligárquica em conluio com setores da justiça e da polícia, promovem, em toda a América Latina, ataques diuturnos contra os respectivos governos.

Utilizando-se de procedimento previsto na Constituição (impeachment), busca-se apear do poder uma presidenta legitimamente eleita, sem a mínima base jurídica. Na linha de frente, parlamentares acusados de corrupção, que bem espelham o perfil dos seus eleitores recém-saídos do armário. Contra a presidenta não há nada. Nada.

Ao mesmo tempo, agora não se houve mais falar em Lava Jato. Como nunca se ouviu falar em Mensalão do PSDB. O falastrão de Curitiba calou-se. Bandidos, e seu chefe, continuam impunes, sob a benção acovardada do STF. Toda a grande imprensa internacional, diferentemente dos pilantras da grande mídia tupiniquim, condena o golpe travestido de impeachment. Esses bandidos eleitos, e os que os aplaudem, ou com eles hipocritamente marcham, submetem o país a uma vergonha que dói n’alma. Todo o respeito ineditamente conquistado esvaiu-se.

Estamos voltando à condição que sempre desejaram os poderosos: a de uma república de bananas. Mas solamente para o povo, seu eterno macaco.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

SIM! SIM! SIM!*

pragmatismopolitico.com.br
*Tb pub na GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios PRAGMATISMO POLITICO e PCdoB/AL

Esses últimos tempos têm sido ricos em me produzir náuseas e nojo invencíveis. Não há ânsia de vômito que saia derrotada. Como vitoriosa foi a facção dos corruptos, que assim deve ser considerada porque majoritariamente prenhe desses seres que infestam o país.

Foi um espetáculo de horror. Refiro-me, claro, à sessão de votação da admissibilidade do impeachment, ocorrida na Câmara dos Deputados, cujo pedido fora antes aceito, em ato de desavergonhada vingança contra o PT, pelo impune (e louvado pelos sepulcros caiados) corrupto-mor do país na atualidade. Seria de comédia, não se tratasse, ali, de algo extremamente grave para uma república federativa que se diz democrática e sob o império de sua constituição. O circo de horrores foi de tal monta que me vi agradecendo a Deus, mais de uma vez, por me conferir a capacidade de discernir entre o certo e o errado, de ver onde está a corrupção e os que a enfrentam, onde o discurso é hipócrita, cínico e covarde, e onde o é justo, equilibrado e corajoso. Vi-me agradecendo a Deus por me recusar a comportar-me como gado, que segue a boiada, ou como folha ao vento, ou mesmo como m... n’água corredeira.

O que se viu, ressalvados os poucos dos 367 que eram “apenas” homicidas da democracia e do estado democrático de direito, foi um desfile prenhe de hipócritas, estelionatários, corruptos, sonegadores, torturador, fundamentalistas religiosos, fascistas, racistas, homofóbicos, misóginos e assassinos. Eleitos. Donde representam seus iguais. À flor da pele, entretanto, hipócritas que eram, via-se maridos, pais, avós e filhos exemplares e apaixonados. As famílias de boa parte dos cínicos foram tão invocadas como justificativa dos votos pusilânimes, que fiquei desconfiado de que Dilma lhes fizera algum mal.

Aí no dia seguinte, logo pela manhã daquela noite insone, deparei-me com um fato que, apesar de singular, provavelmente é pista segura de que a presidenta fez-lhes mal, mesmo. A deputada Raquel Muniz, aquela que elogiou a gestão do seu marido também querido, o prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz, e terminou a sua declaração de voto CONTRA A CORRUPÇÃO e com exaltados SIM! SIM! SIM!, acordou de seu berço esplêndido com a Polícia Federal cumprindo mandado de prisão exatamente contra seu cônjuge varão. É preciso, mesmo, tirar essa Dilma. Os bandidos precisam de sossego.

Enquanto isto, os arautos da moralidade e da ética comemoravam com suas panelas e camisas verde-amarelas da CBF o resultado propiciado por seus 367 heróis.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Prisão para Lula e Dilma!*

*Tb pub na GAZETA DE ALAGOAS e nos sitio Pragmatismo Político

Lula está sob investigação. “Descobriram” que é dono de um sítio mequetrefe em Atibaia, um triplex de classe média média no Guarujá, uma canoa de lata e de um pedalinho. Destes últimos há provas (e confissão!). Dos imóveis, nenhuma. Ao contrário. Há fortes indícios de que o sítio foi emprestado por endinheirado amigo de longa data, que para deleite de seus algozes é proprietário de empresa envolvida na Lava Jato. Do apartamento há documentos que provam dele não ser dono. Nada há mais. Queiram ou não os golpistas fascistas que lhe têm ódio superlativo.

Dilma não está. De crime nenhum é acusada. Defendem seus algozes que as famosas “pedaladas fiscais” tipificariam crime de responsabilidade. Eles são golpistas. Muitos, corruptos de carteirinha. Tá explicado.

Em um Estado Democrático de Direito seriam inocentes. Afinal, segundo a Constituição, todos somos inocentes até prova em contrário. Lula e Dilma, como iguais a qualquer brasileiro, mas muito mais importantes para o país do que os que os querem presos e desmoralizados, com mais razão. Mas não mais estamos num EDD. E não estando, devem ser encarcerados. Mas por outras razões. A seguir, algumas:

Em primeiríssimo lugar, porque, segundo a ONU, retiraram o Brasil do Mapa da Fome (em pouco mais de 12 anos), pela primeira vez em sua história (então de 513 anos),. Sim, esses dois criminosos tiraram da miséria cerca de 37 milhões de brasileiros (IPEA). O investimento público per capita em educação, saúde, previdência, seguro desemprego e assistência social cresceu cerca de 80% desde 2003.

Merecem a masmorra, também, porque criaram o Programa Minha Casa Minha Vida: cerca de 3,5 milhões de imóveis contratados; benefício para quase 7 milhões de famílias (um Rio de Janeiro). O maior programa habitacional da história do país e o maior do mundo. Pra variar.

Com a criação do PAC (outro crime abominável), construíram R$ 1,3 trilhão em obras (rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, hidrelétricas e refinarias). As estatais, um câncer para os governos anteriores, investiram cerca de R$ 114 bilhões (até 2003 era de R$ 37 bilhões).

Para mater a saúde da economia, o país conta com mais de 350 bilhões de dólares em reservas internacionais — no último ano de falência, 2002, tinha menos de 38 bilhões.

Bem, esses são alguns dos vários crimes hediondos praticados por esses dois facínoras, que me impulsionam a pedir a sua prisão. A mais longa que os brasileiros, pelo voto, lhes concederem. No Palácio do Planalto.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Impítman fora da lei é golpe*

*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB-AL

Querem o impítman de Dilma e a prisão de Lula. Querem-no, já. Queriam-no, ontem. Vamos entender, em resumo apertadíssimo.

Dilma, reeleita Presidente da República. Às vésperas, a capa da Veja, mentirosa e criminosa como só ela, repercutida pela grande mídia. Reação? Nenhuma. Sem espaço (mídia), tampouco horário político-eleitoral (findo).

Dia seguinte: opositores (grande mídia, oposição e eleitores descontentes) já pedem o impítman. Argumento: está previsto na Constituição. Teratologia. As possibilidades de prisão também estão previstas em lei, mas sói há de falar-se em prisão nas hipóteses lá taxativamente previstas. Analfabetismo político? Espírito antidemocrático? Golpismo? Escancarados. 

“Pedaladas fiscais”. Ferramenta (questionável) de gestão. Não previstas em lei como crime. E em sua essência não o são, mesmo. Qualquer aluno mediano de Direito o sabe.

Pasadena. Não pesa sobre Dilma qualquer imputação de responsabilidade pelo episódio. Ao contrário.

Operação Lava-Jato. Poderia ser um divisor de águas na persecução penal. Desvirtuamento. Inversão de prática legal investigatória. Prende-se, primeiro, para colher prêmio de redução de pena acenada, depois. Tortura disfarçada sob o manto da legitimação judiciária. Importa é colher algo que impute atividade criminosa à presidenta e ao ex-presidente Lula. Vazamentos seletivos. Cumpliciamento com a grande mídia, que repercute e interpreta a bel prazer o material, omitindo o que não robustece sua pretensão.

Condução coercitiva de Lula. Violência. Outra decisão ao arrepio da Constituição. Afronta inaceitável ao Estado Democrático de Direito. Privilégio despótico dos fins (criminalizar e prender Lula) em detrimento dos meios (a lei). Resultado principal: tiro no pé.

Vazamentos de conversas íntimas entre Lula (recém-chegado da condução ilegal e a Presidente da República. Crime, segundo Min. Marco Aurélio (de direita) e outros juristas igualmente respeitados (e igualmente insuspeitos). Conteúdo dos diálogos: estupefação, revolta e ausência absoluta de crimes. Objetivo dos vazamentos: insuflar a opinião pública e municiar os adeptos do MBL. Resultado principal: tiro no pé.

Vergonha para a história: OAB. Mérito para a história: CNBB, IAB, CFPsicologia, Universidades Federais, imprensa internacional, e muitos outros.


Dilma e Lula seguem sem ser sequer réus em processo criminal, o que dizer-se condenados. Impítman: golpe. Ponto.

domingo, 3 de abril de 2016

A corrupção dos cínicos (ou cegos)*


*Tb postado nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB/AL

Fico me perguntando... Não, na verdade não fico, porque não acredito que alguém em sã consciência possa honestamente crer no que vou objetar. Mas, para iniciar o texto, essa pergunta falseada, para construção do raciocínio a tanto se presta. Então, volto: Fico me perguntando se alguém pode realmente crer que a corrupção — que está sendo combatida nos tempos atuais, nos governos Lula e Dilma, inclusive atingindo alguns filiados ao próprio partido desses presidentes (que nem de longe são maioria) — seja obra e graça desses governos.

Ora, Dilma e Lula criaram — sim, foram eles! — os principais instrumentos de combate à corrupção. Isto é fato, não interpretação. A própria lei da delação premiada — despoticamente utilizada como instrumento de tortura— foi sancionada por Dilma. Ambos sempre prestigiaram os mais votados pela corporação dos procuradores federais. Diferentemente do outro, que lhe antecedeu. Isto também é fato. Escolheram os ministros do STF dentro de estrito espírito republicano, tanto e a tal ponto que muitos cinicamente usam isto como argumento para referendar eventuais equívocos da Corte, do que é exemplo o que diz: não reclame, porque foram Lula e Dilma que os escolheram. E aí devo dizer: realmente foram tão republicanos quanto ingênuos. Quem sabia escolher era FHC! Vide Gilmar. E a polícia federal? Tem atuado com tal liberdade ao ponto de reivindicar, pasmem, sua autonomia, como se algum governo pudesse (ou devesse) conferi-la a uma instituição policial.

Mais! O principal órgão de oposição dos governos Lula e Dilma é a chamada grande mídia, que sequer foi incomodada. Deveria! Afinal, é a grande mídia que mente, escamoteia, manipula, falseia, distorce e até crimes pratica. Essa mídia jamais poderia receber um vintém de verbas federais. E esses governos deveriam ter promovido a sua regulação, ao menos nos moldes realizados por dois grandes expoentes do capital: os EUA e o Reino Unido. Nem isto. Mesmo apanhando dia e noite, desde quando Lula foi eleito. Mesmo como vítima de uma campanha diuturna desonesta, primeiro contra a sua reeleição; agora, por seu impeachment.

A polícia federal, sem que o seu inoperante então Ministro da Justiça e chefe sequer soubesse, participou ativamente de grampo realizado (e divulgado) de conversa íntima do ex-presidente com a atual presidente. Entre muitas outras coisas. Essa mesma polícia federal realizou, em todo o governo que lhes antecedeu, menos de meia centena de operações, enquanto agora já passa de 2.500. Que governo corrupto é este que deixa a sua polícia agir com tal liberdade e, pior, com inescondível atuação política contrária?

Então, por favor, não venha dizer que este é o governo da corrupção, porque se fizer estará sendo escancaradamente desonesto. No mínimo, intelectualmente desonesto. Ou corrupto, como vocês gostam de dizer, não raro sem moral para tanto.

sábado, 26 de março de 2016

Dumont


www.zazzle.com.br

Conto (microconto)

Era uma vez um gato que nasceu com asas. Mais! Tinha cabeça amarela e corpo esverdeado, levemente mais claro entre o ventre e o rabo, e ombros vermelhos delineados com amarelo. Quando abertas, suas asas apresentavam partes avermelhadas e de um azul-escuro nas extremidades. Chamava-se Dumont, em homenagem ao inventor da aviação. Dizem ter herdado essas características do pai, um papagaio conhecido pela alcunha de Don Juan. Por causa deste, aliás, ninguém mais em muitos quilômetros queria ter como animal de estimação um papagaio-fêmea. O que não se imaginaria, porém, é que as felinas também poderiam ser alvo da sedução do papagaio. Dumont nasceu, pois, dessa inédita conquista de Don Juan, seguida por uma paixão irrefreável e correspondia por Gisele, que, por sua vez, não faria vergonha entre manequins e modelos em qualquer passarela de moda. Uma gata, também nesse sentido (para ele).

Mas nosso herói tornou-se um adolescente infeliz. Apesar da formosura herdada da mãe, e das cores tipicamente tropicais do pai, Dumont era depressivo. Gata alguma se interessava por ele. Contra o que vulgarmente se esperaria, a beleza e o dom de voar despertavam inveja e o submetiam ao preconceito de qualquer uma por quem se enamorasse. Por isto mesmo, ao espírito de liberdade, já próprio dos felinos, veio se somar o hábito de voar para as regiões vizinhas, de onde voltava só muitos dias depois, ainda mais triste.

Um dia, Dumont rendeu-se à doença e nem mais se alimentar queria. Definhava. Não bastasse, Don Juan e Bundchen lentamente morriam também, pela culpa que os castigava por terem ousado se amar, mesmo sendo tão diferentes. Os maiores psiquiatras e psicólogos veterinários da região e além-fronteiras foram chamados, sem sucesso. Parecia que uma tragédia estava para se instalar, sem nada a impedir o triste destino que se anunciava.

Aguardava-se, assim, o precoce e doloroso fim para aquela singular e amorosa família, quando, num dia que parecia ter nascido mais belo do que todos os outros, Dumont recebeu uma inédita e barulhenta visita: “Krik-kiakrik-krik-krik, kréo”, cantarolava para ele uma formosa papagaio-fêmea, recém-chegada na vizinhança, olhando-o com doçura e alegria. Dumont, que jamais conhecera uma na vida, sentiu as pálpebras se erguerem. “Krik-kiakrik, kréo, krik-krik”, disse-lhe de novo a bela papagaio. Então, como que por milagre, a cor íris-amarela dos olhos de Dumont se reacendeu. Tropegamente foi se levantando e, sob o olhar estupefato de Don Juan e Bundchen, saiu voando com ela.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Pru cumpadi Lula

Caetés, pernambuco, 22 desse março. Ano de 2016.

Digaí meu cumpadi. Resorvi escriver essa carta pru meu cumpadi pru mode de quetô muinto avexado cum isso tudo qui tem sidadu cum sua pissoa. Os ômi quere prendê ocê! Toma tenensia! Sei, sei qui o cumpadi ta disso apercebido, mais num tenho nem durmido direito pur calsa dessa cambaiada de nuticia rim qui xega pur aqui nu sertao.

Priméro essas estoreas dessas canoa e pedalinhu. Pro mode de que, ômi! Tu quis se amostrá, foi pexte? Agua pra nois, tu sabi, diaxo, sempre foi pra bebe e se banhá! Negossio de barcu num é pra genti!. Aiai. E essis camboio de prisente dus guvernudus estrangeiru. Pro mode de que ficassi cum essas merda!? Agora tas vendu o resurtadu.

Mais me dis. Tu ganhassi mermo no cambalaxu o tar do sitio e do triprexx, foi? Num minta pru seu cumpadi! E num si preolculpe podi respondê que o zé dus correo num vai abri a corespondença pro mode de que ele sabi qi é crimen. E o tar do apartamentu? Vixe. Descurpa, cumpadi. Num preciza vim cum treis predras na maumAfe! Num si podi falar mais nada. Brincandera, cumpadi. Só tô atentandu seu juizo pro modi a cunversa num ficá taum serea. Creditu inocê. E sô doido é?

Pru bem da verdadi si issu fossi verdadi eu ia diser qi tu é é muituduburro. Isso sim.U caba sê o mió presidenti do brasil e roubá um sitiosinho merreca era muito tapadu, mermu, mais sei que tu num é safadu, muinto menus burro.

Otra coisia cumpadi. Agora é sereo. Teinha mais coidado ômi de Deus! Cumo é qui tu vai dizê qui essi povo poderoso tá si mijando nas carças? Cumé qui tu disse mermo? Acorvadadu! Sim foi isso. Vixe qui ainda to rindu aqui. Hem? Num tem desimportancea si é verdadi, cumpadi! Nein qi foi numa confabulança nu particulá. Ai meu deuzinho. Tu num intendi, omi? Esi povu num asseita qi um omi sem enstrunssao das leteras diga essas verdadi! Essi tar de telefone eu qui num confiu.

Cumpadi vou pará qui a muié ta xamanu pru cafe. O povo ta tudo doidinho aquna regiaum pra ti defendê. Difirci sigurá. É um tar de mexeu com tu mexeu cum nois q ave maria. Fica cum Deus.

E si cuida.
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Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOASGROUP e nos sítios PRAGMATISMO POLITICO e PCdoB-Alagoas

quarta-feira, 16 de março de 2016

Reagir é inadiável

*Pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB-AL
Ontem houve grande manifestação pelo país. Não sei se a maior da história, como alguns alardeiam. Não importa. Foi grande. Segundo institutos de pesquisa, majoritariamente formada por integrantes das classes alta e média, e de cor branca. Não importa. Foi grande. Teve coreografia, pequenos e imensos ricos bonecos, adrede produzidos e postos à venda, além de trios elétricos, protetores solares, e casais com seus bebês, todos ornados de verde-amarelo, devidamente cuidados por suas diligentes babás negras (de uniforme branco). Não importa. Foi grande.

Ora, todas as classes sociais têm o direito constitucional de lutar por seus próprios interesses, ou, como dizem, para ter o seu país de volta, por mais que esse desejo não tenha pé nem cabeça (o país jamais foi tão de todos como nos últimos treze anos), salvo se isto significar tê-lo aos seus pés, de sua cobiça, seu egoísmo e, conscientemente, ou não, dos interesses do grande capital internacional, que até então sempre havia posto o país de cócoras.

Importa, e o enfraquece enquanto movimento, a sua contradição essencial, que o torna tão oco quanto os bonecos ofensivos que ostentava. Bandeira anticorrupção é vazia (e antiga). Quem não a hasteia? As manifestações, inclusive, estavam prenhes de corruptos e sonegadores amorais. Além dos inocentes úteis manipuláveis e manipulados. Basta ver quem os apoia e qual foi o seu candidato.

Mesmo assim, sob o manto destruído pelas traças da anticorrupção oca que envergam, está o desejo inconsequente e racionalmente injustificável de derrubar a presidenta recém-eleita pelos brasileiros (desde o dia seguinte a sua posse), e impedir, não pelo voto, o retorno ao poder do maior líder popular deste país, ancorado na grande mídia e em seus interesses bilionários e servis ao capital estadunidense, e nos novos e perigosos (à democracia) fenômenos da judicialização da política e da politização de parcela do judiciário. Mi-mi-mi de quem não sabe perder. Espetáculo de analfabetismo político, somados a uma cultura escravocrata, racista e fascista.

Urge, pois, a reação, que há de se dar na aglutinação das forças políticas contrárias ao golpe, e na ida às ruas. Mais do que a majoritária parcela da intelectualidade nos mais diversos campos, que defende o recrudescimento dos avanços sociais conquistados nos últimos anos, está o seu maior beneficiário: o povo, o povão, que sintomaticamente não estava nessas manifestações.

A mulher e a democracia: vítimas

*Pub na Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB-AL, aos 09.03.2016

O golpe há tempos anunciado e nos útlimos tempos recrudescido não é em Dilma, Lula ou no PT. O golpe é na democracia.

O golpe não mais se veste de verde-oliva ou é decidido nos quartéis (acredita-se), porque as amadurecidas declarações e atitudes das novas Forças Armadas permitem essa compreensão. Ao contrário, aliás, dos coxinhas, que estão mais reacionários e politicamente analfabetos que seus pares de 64.

O golpe “moderno” vem sendo forjado por parcela da mídia nacional, notadamente a milionária, corrupta e impune deste país, que compõe os grandes grupos midiáticos, aliada a uma pequena parte (acredita-se) do judiciário, do ministério público e da polícia federal.

Ou será que alguém minimamente pensante — goste ou não de Lula, Dilma ou do PT (aliás, esse desgosto já é, não raro, resultado, ainda que parcial, do massivo e diuturno massacre manipulador midiático) — não enxerga que sob o discurso e prática (aparente) do combate à corrupção não está o objetivo de romper o ciclo do projeto político pensado e aplicado a partir de 2003?

Afinal, não foram Lula ou Dilma citados cinco vezes em delações premiadas; nem estão envolvidos no esquema de desvio de 2 bilhões de reais da merenda em SP, tampouco no roubo de 1 bilhão do metrô e da CPTM; não era amigo-irmão do dono do helicóptero onde foram encontrados 450 kg de cocaína (não se sabe, até hoje, de quem era essa droguinha de nada, mas quem comprou o pedalinho do sítio, vixe!, disto já se foi atrás);  não têm contas na Suíça, nem imóvel em Paris, nem receberam 1/3 de propina de Furnas;  não venderam  a maior empresa de mineração do mundo por menos de 4 bilhões, quando valia 100 bilhões de reais; não compraram uma reeleição casuística a 200 mil reais por cabeça; não tinha (ele) e não tem (ela) procurador-geral da república que engavetava todas as investigações que lhe chegavam, escolhido sem obedecer ao desejo dos membros da categoria; não foi a polícia federal deles que realizou apenas 48 operações em seu governo; não são compadres do banqueiro André Esteves, não cobravam propina da UTC (o “chatinho”, sim); não têm imóvel de 11 milhões de euros em Paris; não construíram dois aeroportos com dinheiro público em fazendas da família...

Mas foi ele o conduzido “debaixo de vara” no novel estado medieval de Curitiba, e é ela a quem, além de não se deixar governar, pouco importando que o país vá à bancarrota, é xingada de nominhos como puta, vaca, vagabunda. Juro: se eu vir um caba desse desejando “Feliz Dia da Mulher”. vou mandá-lo TNC: Tomar Nes Cau.

Parabéns às mulheres guerreiras deste país!

domingo, 6 de março de 2016

1954, 1964 e hoje: não é coincidência*

https://glaucocortez.files.wordpress.com
*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB-AL de 02.03.2016

Lula perdeu três eleições. Na quarta, venceu. Depois, foi re-eleito. Durante o período atravessou turbulências graves, notadamente na política, na economia e na popularidade. Deixou o mandato com altíssima aceitação popular. Continua sendo reiteradamente eleito o melhor presidente da história do país em todas as pesquisas de opinião, e ainda hoje seria um fortíssimo candidato à presidência da república. É respeitadíssimo inclusive pela comunidade internacional. Mesmo com seu governo, seu partido e sua figura pessoal sendo atacados incessantemente durante toda a sua vida política.

Dilma não possui a retórica, o carisma e a genialidade política de Lula. Mas mesmo assim Dilma foi eleita, em grande parte porque o povo confia em Lula, e ela foi por ele escolhida. Depois, desta vez por mérito próprio, foi re-eleita, mesmo sofrendo uma campanha midiática ferocíssima, repleta de socos abaixo da linha de cintura, sendo o ápice da canalhice a capa mentirosa da revista Veja — que nos últimos anos se transformou no mais representativo exemplo de mau “jornalismo” escrito do país —, às vésperas do pleito. De lá pra cá, o que essa mulher tem sofrido de ataques a si, ao seu governo, ao partido a que está filiada e a tudo o mais que lhe diga respeito é tão impressionante quanto cruel e desumano.

Esses ataques incessantes tornam simplesmente impossível se estabeleça um mínimo de governabilidade, notadamente num país do tamanho e complexidade do Brasil, prenhe de problemas seculares. Dilma e seu governo vêm sendo diuturnamente torpedeados por jornais, revistas e telejornais desde o dia seguinte àquele em que os brasileiros a escolheram para governar por mais quatro anos, e paralela e sucessivamente por uma oposição incompetente, sem projeto de governo a confrontar o que atacam, e municiada pela mesma mídia parceira. Não há esse presidente que consiga fazer um bom governo num quadro desses.

As semelhanças com 1954 e 1964 não são meras coincidências. O modus operandi e o conteúdo dos ataques guardam essenciais semelhanças com os vividos por Dilma. Os velhos temas para enganar incautos: a corrupção e a incompetência. Aliás, vividos também por Lula, embora não exerça cargo público algum. No caso deste, é o medo. Medo da sua força. Medo de serem derrotados mais uma vez caso ele resolva candidatar-se novamente. Mas o povo enxerga todas as manobras. Basta ver o recrudescimento significativo de novas filiações ao PT e ao principal partido aliado do governo, o PCdoB.

"Teoria" do desconhecimento do fato*

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*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB-AL de 24.02.2016

Durante um bom tempo de advocacia pública ocupei cargo de chefia. E como tal tive sob minha coordenação técnica e administrativa alguns valorosos colegas. Invariavelmente, depositava sobre eles a confiança normal e necessária a liderá-los, usando os meios de controle de gestão inerentes ao cargo. Geria, então, um espectro microscópico da administração.

Por essa época testemunhei um presidente de partido político ser condenado por crimes que teriam sido praticados por alguns de seus membros ou de partidos aliados, fundada a condenação na equivocada e inaceitavelmente ressuscitada teoria do “domínio do fato”. Isto é: à míngua de prova de que houvesse participado da suposta atividade criminosa, admitia-se que necessariamente dela teria conhecimento, pelo cargo ocupado. Em suma: um subordinado teria supostamente praticado um crime, e você, face ao cargo que ocupasse, necessariamente de tudo saberia, quando não seria o mentor, donde mereceria ser condenado também, se aqueles o fossem. Um dos juízes, recordo-me, chegara a afirmar que o condenava, inobstante sem provas, porque a literatura jurídica o permitiria. Estava a referir-se a tal da teoria do “domínio do fato”.
 
Tempos depois, um colega, também chefe, confidenciou-me que a ser assim deveria incluir em suas orações o pedido aos céus para que nenhum de seus subordinados pudesse vir a cometer delitos que deles não lograsse conhecer, mas que segundo os adeptos de ocasião da referida teoria deles deveria sabê-lo, frente ao cargo que então ocupava.

É que temia, vindo a descobrir-se um suposto e desconhecido mal feito patrocinado por um deles, ser acusado de que necessariamente deveria dele ter conhecimento, quando não fosse dele mentor. Achei um exagero, e rimos. Mas...

Por essa época observei muita gente regozijando-se por tal ou qual membro daquele partido estar metido em algum desvio ético. Alguns, inclusive, que não tinham sequer a mínima condição moral para fazê-lo. Tipo: tá vendo? Olha aí, o metido a limpinho!...

Pude constatar, assim, que o temor do colega não era assim tão amplificado. Não tive dúvidas de que, ao lado dos novéis adeptos togados da malfadada teoria que poderiam incriminá-lo, decerto também haveria os hipócritas de sempre que se regozijariam em vê-lo “envolvido” em alguma safadeza eventualmente cometida por um preposto seu, para dizer, com o cinismo e deleite que lhes é inerente: Ele sabia; como não saberia?!

Um dos prazeres dos canalhas é a difusão da impressão coletiva de que todos são como eles.

Sobre (não) ter "juízo"*

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*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB-AL de 17.02.2016

Há um pensamento que os liberais gostam de usar para desqualificar os comunistas que perseveram, a exemplo, entre nós, dos muito respeitados e populares, como homens, arquiteto e escritor, respectivamente, há pouco falecidos, Niemeyer e Jorge Amado. Cuida-se de pretenso axioma, até cinicamente tolerante: quem não foi comunista até os vinte anos não tem coração; quem o é depois dos trinta não tem juízo. À juventude, assim, seria permitido esse arroubo irresponsável e utópico em que se traduziria o comunismo, desde que, depois, a maturidade o trouxesse à realidade, portanto, ao liberalismo.

Danou-se! Por aí, estaria condenado a ser um desajuizado irremediável. E embora assim não me considere, devo resignar-me, afinal dizem que os loucos não se acreditam loucos... Donde o que eu pense de mim pouco importa aos que, por esse norte, seriam mais ajuizados do que eu.

Já tive a oportunidade de dizer para vocês que gostam de ler meus devaneios — meia dúzia de adoráveis maluquinhas e malucos —, que sempre fui de esquerda, acho que desde quando comecei a refletir sobre a vida e suas brutais injustiças e desigualdades sociais no mundo e na sociedade escravocrata, preconceituosa e (metida a) elitista da minha, entretanto, querida Maceió.

Mas para me dizer algo comunista levou um tempo enorme... Tanto que somente vim a fazê-lo já adulto, completados os tais trinta anos. É que não o fiz num arroubo de juventude, no seu alvorecer gostoso que há muito se perdeu no caminho. Vim a considerar-me, na verdade, depois de muito pensar e ler, compulsiva e quase sofregamente, mas menos do que gostaria e ainda preciso. Quer dizer: sou um irremediável. É que sempre levei muito a sério as afirmações a respeito de qualquer coisa, o que dizer-se a respeito de mim mesmo. Mais ou menos como dizer “eu te amo”. Não se deve dizê-lo sem a convicção do amor sentido.

Há quem diga que a dicotomia esquerda e direita não existe mais. Mas não tenham dúvida: quem o diz é de direita ─ como já disseram que o socialismo e o comunismo acabaram apenas porque finda a então URSS (assunto para outra crônica, talvez). Não passa da mesma conversa tola daqueles que ─ por ignorância ou, pior, como mais comum, por desonestidade intelectual ─ dizem que os governos Lula e Dilma são socialistas. Os governos Lula e Dilma não passam de pretensas e mal acabadas versões do estado do bem-estar social europeu. Nada mais. Mas ainda o sejam, são os melhores já experimentados por este país.

Donde urge sejam defendidos.

Respeito gástrico*

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*Tb pub. no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCdoB-AL de 10.02.2016

São muitos, e não generalizo, os cabras-de-peia no PSDB, no PMDB, no DEM e em outros partidos do país, inclusive em alguns que se arvoram assépticos na chamada esquerda brasileira. E isto se explica porque agremiações formadas de seres humanos, com todas as suas imperfeições e vícios. Até nas religiosas a gente se depara com figuras que as desonram, inclusive para elegerem, suas vítimas, crianças e outros indefesos que tais.

Mesmo assim, e sem maniqueísmo esquerda (o bem) x direita (o mal) ─, não posso negar que não me tenha causado indigesta surpresa saber do descompromisso com a ética, de gente de dentro do PT, ainda que não se deva, sem atenção ao rigor ideológico, compreendê-lo um partido rigorosamente “de esquerda” é que com suas diversas tendências internas, assemelha-se mais a uma frente, peculiaríssima, dentro do espectro partidário do país. Teria, ainda assim, necessariamente, que honrar o voto daqueles que lhe depositaram tantas esperanças no campo ético. Aqui e ali não o fizeram. Ponto.

Isto não significa, porém, que se possa colocá-lo na vala comum desses partidos da direita, seja porque com eles não se possa confundi-lo enquanto tal, seja, muito menos, tomada em conta a sua honrada e aguerrida militância.

Da mesma forma que entendo não se deva filiar-se a um partido no oba-oba ou por razões outras, tampouco compreendo a política dissociada de um. E embora não seja filiado ao PT, defendo-o, mais do que muitos petistas inclusive, principalmente porque compreendo que se é verdade que Lula o transcende, tampouco se teria transformado no fenômeno que é sem ele. Defendo um projeto político, o mais avançado em muitos anos.

O governo Lula e o PT, com seu fiel e respeitado vice, o falecido José de Alencar (ex-PMDB, PL e PRB), o PCdoB e outros aliados promoveram avanços inéditos na história neste país. Muitas páginas seriam necessárias para discorrer sobre todos. Nenhum desses partidos que o(s) critica(m), não raro com cinismo e hipocrisia, o fizeram quando puderam. Nem sombra delas. Até a comunidade internacional de escol o reconhece e não cansa de homenagear o ex-presidente.

Mas nada ainda me surpreende mais do que ver algumas figuras ligada a alguns desses partidos da história política nacional arvorando-se paladinos da ética e da justiça. Não dá pra aceitar, sem ser tomado de ânsia de vômito, ouvi-los posando de defensor desses princípios tão caros à prática política nacional.

Até para a hipocrisia, respeitem o meu estômago, há limites.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Não gosto, mas sorrio

*Tb pub no jornal Gazeta de Alagoas e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB - Alagoas

Não gosto de escrever sobre política. Juro!, com o dedo indicador de cada mão levados cruzados à boca, beijando-os duas vezes: numa, estalando a beijoca no indicador de uma delas; noutra, o outro. Não é ironia. Estou rindo, agora. Vou me recobrar, para continuar.

Devo dizer que comecei, entretanto, a expor minhas modestas (sem demagogia, juro novamente) ideias sobre o malfadado tema, aliás, de maneira nada aprofundada com vistas a atingir o maior público possível — pretensão infelizmente certamente inalcançada pelo viés de esquerda que as contém, pouco aceito pela classe média, pelo preconceito de que são impregnadas, arrisco supor —, depois que me vi preso a uma cama após cirurgia a que me submeti nos idos de 2006. De início o fiz parcimoniosamente, vez ou outra. Adotava, então, minhas preferências, que naturalmente recaíam sobre outros temas. Depois, passei a fazê-lo mais amiúde sobre política. Há algum tempo o faço semanalmente, ou quase, aqui, neste blog,  e, simultaneamente, no jornal Gazeta de Alagoas, e nos sítios Pragmatismo e PCdoB -Alagoas.

Sem que até então jamais imaginasse, essa atividade militante, ao lado de tornar-me figura conhecida do diminuto, mas seleto e querido público leitor respectivo, concorde ele ou não com as ideias que defendo, angariou-me resultados nada perseguidos. Ao mesmo tempo em que me vi surpreendido com manifestações de apoio ao que produzia, em grau maior (talvez) criei desafetos e percebi amizades(?) estremecidas ou, até, pasmem, rompidas.

Sim. Apenas porque me atrevi a expressar minha opinião sobre o tema, preponderantemente em defesa do projeto político em que se traduzem os governos Lula e Dilma, vi-me, de um dia para o outro, sujeito aos mais diversos ataques, diretos (em redes sociais) ou indiretos. Sobre estes últimos, jamais me esquecerei (farto-me de intimamente sorrir com eles, até hoje) dos olhares de reprovação ou estupefação a mim dirigidos (volto a sorrir), mais ou menos velados, vindos inclusive de pessoas conhecidas, quando acompanhava minha idosa mãe à seção eleitoral, na Ponta Verde, em que aquela consignaria firmemente seu voto na presidenta afinal reeleita. Eu estava vestido (e investido), com indisfarçável orgulho, de uma camisa com o desenho do rosto da presidenta, ainda jovem, estampado no peito, num colégio eleitoral prenhe de eleitores do asséptico Aécio.

Nada me resta, pois, que não voltar a sorrir. Já voltei. E terminar o texto sorrindo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Reminiscências de ontem e de hoje

*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios PRAGMATISMO POLÍTICO e PCDOB - Alagoas

Nasci em 1964, no alvorecer funesto do golpe. Meus pais não tinham militância na esquerda. Nem na direita. Tinham medo, suponho, como a maioria da população brasileira, que pouco ouvia falar do que acontecia nos porões dos DOI-CODIs e similares espalhados pelo país.

Só lá pelos 14 anos é que me vi torcendo pelo candidato ao Senado, Moura Rocha, que ganhou, mas não levou — é que pelas regras dos golpistas de então seria eleito o mais votado do partido que, somados os votos de seus candidatos, tivesse a maior votação: a ARENA vencia. Porém, para minha satisfação elegeu-se para a Câmara o meu hoje amigo querido José Costa (MDB). Também Mendonça Neto (MDB). Como somente podiam existir esses dois partidos, na “democracia” militar, todos do MDB “eram” de esquerda. E a gente queria ser de esquerda. E, claro, contra a ditadura militar. Ali, não sabia, mas já estava decretado de que lado eu estaria em toda a minha vida. Uma escolha realizada, então, quase que apenas intuitiva (ou seria orgânica?).

Eleição seguinte (1982), então estudando Engenharia Civil na UFPE — que depois abandonei para fazer vestibular para Direito para a mesma universidade —, fiz campanha para Marcos Freire, governador; aqui, para José Costa, e para o Senado em Moura Rocha; todos derrotados. Foi por essa época ou um pouco antes que iniciei minhas incipientes leituras marxistas, e era leitor voraz da Tribuna da Luta Operária, a que fui aconselhado pelo meu pai: leia, mas não assine. Ele temia por mim.

Em 1986, foi eleito o comunista alagoano, Eduardo Bomfim, constituinte nota 10 da Constituição vigente, de 1988, pelo corajoso PCdoB. De lá pra cá, o povo brasileiro elegeu o presidente mais respeitado e homenageado da história deste país, e uma mulher valente, corajosa e digna de todo o respeito e admiração: Lula e Dilma. As Forças Armadas, por sua vez, evoluíram e voltaram a merecer o respeito que a sua genuína e imprescindível missão exigem.



E hoje, conhecidos de há muito os crimes de porão tingidos de verde-oliva e sangue, surpreendo-me e entristeço-me quando vejo brasileiros defendendo a volta do regime militar, ou o impedimento da presidenta eleita do Brasil (tentativa golpista travestida de legalista). Mas alegro-me ao constatar a força dos que defendem a democracia tão arduamente conquistada e, de consequência, o mandato legitimamente conquistado da presidenta — inclusive nas ruas, como pude ver (e participar) no último 16 de dezembro. Definitivamente, o povo vê. E, se necessário, vai à luta.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Essa esquisita crise

*Tb pub no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios Pragmatismo Político e PC do B - Alagoas

Desde quando a crise internacional por aqui desembarcou, e os grandes grupos midiáticos tupiniquins passaram a bombardear a cabeça do brasileiro, dia após dia, por semanas e meses a fio, venho, pasmo, a observá-la (a crise), aos fenômenos que lhe margeiam e aos coros dos descontentes, manipulados, porque incautos, ou de má-fé, mesmo, no seu contumaz exercício de desonestidade intelectual movido pela luta de classes em que está enfronhado, a par com fatos e números da economia que teimam em refutá-la.

Até por isto, já se tornou famosa e objeto de pilhéria e deboche a expressão “apesar da crise”, a iniciar o título de notícia positiva da economia veiculada pelos grandes grupos midiáticos, ou a findá-lo, quando não lhe é possível escamoteá-los, apesar da crise!

Claro que a crise alcançou o Brasil, e que ela é perversa e relevante. O problema é que o seu tamanho, aqui, é criminosamente amplificado pelos artifícios midiáticos, de modo que seus efeitos se dão tanto efetivamente, quanto apenas no plano psicológico.

A crise existe, é internacional, e o governo tem parcela de responsabilidade pelo seu incremento e equívocos no seu enfrentamento. Porém, pela manipulação e clima criado pela oposição incompetente e irresponsável, sob o comando da mídia de direita aparelhada para dar-lhe sustentação, ela não apenas se torna maior, mesmo, do que seria ou é, como dá a impressão (psicológica) de uma estatura ainda mais robusta.

É de se notar, inclusive, que boa parte do empresariado mais engabelado pela mídia e suas pretensões políticas, que inicialmente fez coro à crise, com o objetivo de enfraquecer, para golpear, um governo recente e legitimamente re-eleito, agora, ao sentir o gosto amargo da cria que alimentou, percebe que deu um tiro-no-pé, quando não no coração (de sua empresa).

Assim, enquanto presencio por todo o país aeroportos, hotéis e rodovias lotados de brasileiros, pasmo, pois, com a esquisita crise alardeada pela mídia criminosa, a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (ALSHOP) divulga que as compras em suas lojas sofreram em 2015 (ano da crise) um incremento de 1,7% relativamente a 2014. E que houve uma queda de (apenas) 1% em relação ao Natal dos últimos 10 anos (apesar da crise).

O que a mídia, então, noticiou, enfaticamente? A queda de 1%. E como é de seu feitio, o fez sem esclarecer que ela refere-se ao período de 1 a 24 de dezembro, tampouco que há onze anos atrás (e há doze, treze, etc.), o incremento foi maior.

Assim é a chamada grande mídia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Avante, presidenta Dilma!


De um lado, uma presidenta para orgulhar qualquer povo:

Guerreira: jovem, presa por defender mais justiça e igualdade social, sofreu nos porões do horror da ditadura as mais terríveis torturas físicas e psicológicas de seus algozes, fardados ou não (prepostos daqueles). A selvageria que a vitimou não maculou seu coração com ódio, nem quebrou sua alma valente, tampouco tornou insensível ao abismo social crescente desde então.

Democrata e republicana: desde que eleita, não teve um dia sequer em que ela e seu governo não tenha sido atacados pela chamada grande mídia, com mentiras e manipulações, além de matérias criminosas. Contrário senso, todos os grandes feitos de seu governo, ou são omitidos, ou distorcidos. À oposição, notadamente ao PSDB, o silêncio e acobertamento cúmplicesJamais investiu contra qualquer um desses meios de comunicação. Da mesma forma, apesar das escancaradas evidências de seletividade de alguns entes da república no exercício de seus misteres, não se tem notícia de que, em algum momento, houvesse tentado influir no trabalho desses entes. Muito pelo contrário: ela e Lula criaram os principais mecanismos de combate à corrupção livremente aplicados, inclusive contra membros do partido a que é filiada.

Honesta: não há, até hoje, um só fato supostamente criminoso que se lhe possa ser atribuído; não responde a processo, a inquérito, a sindicância, ao que quer que seja. Isto apesar de seu governo, e o de Lula, e o PT, serem incansável e seletivamente investigados, às escâncaras, diuturnamente, há mais de doze anos.

Competente: sob as regras do sistema capitalista, conseguiu realizar um primeiro mandado de inéditosavanços sociais e econômicos, jamais experimentados pelo país, inobstante falhas cometidas, tanto na condução política, quanto na econômica. Para todos os gostos. Desde as vistas pelo mais reacionário capitalista, até aquelas apontadas pelo mais radical esquerdista.

É essa a mulherporém, legitimamente reeleita, que, de outro lado, um banco de políticos amorais —mais sujos do que pau de galinheiro, eleitos por uma parcela da sociedade que de hipócrita até a medula se atreve a atacá-la moralmente — quer expulsar da presidência do país, sob a liderança de um desqualificado, que persiste a zombar do país com o traseiro refestelado na cadeira de presidente da desmoralizada Câmara dos Deputados, defendidopor sua turbe de maus elementos.

Força, Dilma! Ao seu lado perfilam eleitores e não eleitores. De movimentos sociais, artistas, intelectuais e juristas de escol, a reitores universitários, a CNBB e o povo. Que não se enganem os golpistas.