quinta-feira, 15 de julho de 2010

Amadorismo e silêncio

Enquanto durou a interrupção e após a definitiva suspensão do jogo iniciado terça-feira, 13 (CRB x Fortaleza), o que mais se ouviu nas rádios alagoanas — excetuada uma ou outra voz — foram críticas à direção do CRB, inclusive tachando-a de irresponsável, por não ter contratado uma ambulância particular, que custaria R$ 700,00, preferindo confiar-se na prestação do mesmo serviço por um ente público, no caso, ao que parece, o Corpo de Bombeiros ou a SAMU.

Tudo porque aquele(s) órgão(s) não teria enviado o bendito veículo (e seus funcionários) na hora designada, além de ter-se verificado, ao depois, pelo árbitro do jogo, que a que posteriormente se fez presente não continha todo o equipamento de socorro necessário em casos que tais.

Choveram críticas à direção, a despeito de vir a saber-se que aquela teria tempestivamente enviado ao ente público o documento solicitando a presença da ambulância na hora informada, e deste recebido a confirmação.

Ora, a questão não é de irresponsabilidade. Quando muito de amadorismo, por não ter a direção o profissionalismo de “enxergar” que tal circunstância poderia ocorrer e, antecipando-se, promover a contratação do serviço junto a uma empresa privada. Amadorismo, ao não providenciar urgentemente a contratação de uma particular quando do atraso daquela retardatária. Amadorismo, ao não verificar se a ambulância conteria todos os equipamentos necessários.

Mas, indagar-se-ia: Qual(is) dos clubes alagoanos assim procede? Acaso não é praxe solicitar-se a bendita ambulância da forma que o fez a direção do CRB? A ambulância do recente Clássico das Multidões era particular? Sinceramente, não sei a resposta a esta última , mas é certo que a direção do Regatas não inovou ao agir como agiu. E não se diga que R$ 700,00 não é uma quantia considerável para um clube alagoano. Para qualquer deles. Puder-se economizá-la, qual não o faria (ou faz)?

A outra questão é que a “falta de sorte” geralmente acompanha o amadorismo. Basta considerar-se que jamais vi um árbitro de futebol ir “in loco” verificar se uma ambulância teria ou não os equipamentos de socorro obrigatórios. Mas o CRB deu razões para o árbitro desconfiar. Basta que se recorde da entrada em campo da ambulância nanica que veio contratada, trazendo apenas um motorista e uma maca. Claro que quando a última chegou, o árbitro, naturalmente desconfiado, foi verificar a situação. Mas sem querer justificar o erro, será que na terra do árbitro as ambulâncias apresentam-se conforme manda a lei?

A derradeira questão esbarra no sempre presente silencio do mais alto mandatário da direção alvirrubra. Naquela hora, imprescindível viesse a público para dizer, em alto e bom som, que o CRB agiu acertadamente, sim; que o CRB fez o que sempre se faz; que quem faltou ao compromisso não foi o clube; que R$ 700,00 é quantia considerável para o clube, sim; e que pedia desculpas à torcida, aos demais envolvidos e trabalhadores do dia por não terem adotado as providências urgentes, para remediar o incidente.

É preciso que o Presidente cumpra com o seu dever de responder pelo clube e defendê-lo, além de desculpar-se por suas faltas. Isto, sim, era o mínimo que se poderia esperar. Mas daí a ser considerado irresponsável por não ter contratado o serviço particular há uma grande distância.
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Foto: Ailton Cruz

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Fale, presidente!

Tenho muita cautela ao referir-me ao presidente do CRB. Conheço-o superficialmente, mas assim me posiciono (com cuidado), seja porque — segundo voz corrente — trata-se de homem de bem, seja porque — também segundo voz corrente — administrativamente saneou um tanto considerável de desorganização que havia no clube e na Pajuçara, seja porque — ainda segundo voz corrente — é devotadamente dedicado ao Galo. Não bastasse, a presidência do Clube de Regatas Brasil tem em seu presidente um torcedor de escol (aqui também, segundo voz corrente). Se assim o é — como a bendita e insistente voz corrente o diz —, tem o presidente do clube do meu coração, portanto, o meu mais profundo e sincero respeito.

O principal problema que enxergo em sua administração, porém, reside em apenas uma, mas significativa característica que a figura humana do presidente empresta ao cargo: sua excessiva discrição, que não raro beira, ou aparenta, inadmissível omissão.

Não são poucas as vezes em que se espera a palavra do presidente. Não são raras as oportunidades em que se enxerga nele aquele a quem caberia pôr fim a desavenças, vaidades, discórdias, fofocas, mexericos, ciúmes... Mas se a sua voz se faz audível no interior da Pajuçara — porém, outra voz corrente assim não atesta —, infelizmente a impressão que é passada, por seu silêncio, ao patrimônio maior do clube (seus torcedores) é a de que da presidência som não fora emitido.

As mudanças na diretoria, por exemplo, conferem a sensação de que o CRB é uma nau sem leme. E não chega a tanto. Mas é que figuras vêm e vão sem que se entenda, já que saíram, por que saíram, pois que voltaram. O pior: quando voltam — ou será quando vêm? — alteram todo o trabalho que vinha sendo até então realizado, não raro desfazendo aquilo que havia de bom. E não se sabe o que pensa o presidente, já que não fala. Então é conivente. Nem que seja, como parece, por omissão.

Também não consigo entender como pode a diretoria de um clube acolher entre seus quadros torcedores do time rival. Ainda se admitiria quando o contrato é profissional, remunerado, portanto. Mas na Vice-Presidência? Diretor? No CRB, entretanto, pode. E entra, e sai, e entra de novo... Com o beneplácito do presidente. Valha-me.

A impressão que se tem é que o clube é um grande e maltratado laboratório, onde muitos que não entendem de futebol vão aprender como fazê-lo, além dos que o usam para obter vantagem financeira, empresariando jogador, por exemplo. Isto também é voz corrente, para fechar a crônica com ela. E como não são responsabilizados por seus atos, ainda experimentam sem maiores cuidados. E é nesses momentos que o silêncio do presidente se torna mais incômodo, mais “audível”.

Fala, presidente! A gente não quer continuar “ouvindo” apenas o seu silêncio.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O número dois pode esperar

Vou chamá-lo número dois. Em atenção aos olhos mais sensíveis. E registro: não vou fazê-lo agora. Vestido e ocupado, escrevendo. Esperarei a hora e o lugar certos. Dá um imenso prazer fazê-lo. Você se sente feliz. O prazer se confunde com a felicidade. Mas fazê-lo, óbvio, com vontade. Nem antes, nem depois de satisfeita. E não quando quer (na hora de dizer o sim, ou o não, no seu casamento), nem onde quer (nas calças). Controla-se a vontade, para fazê-lo na hora possível e lugar adequado. O prazer é retardado. Conscientemente. Mas você sabe que o fará. A espera é, assim, justificada. Você não vai fazê-lo quando não pode, ou não deve. Como eu, agora vestido e escrevendo. Retardá-lo, impõe-se.

Outra: não se o faz ao se dizer que vai fazê-lo. É que ele já está feito, aguardando o sinal para ser expelido. Assim, ao invés de “fazer o número dois”, o certo seria dizer: pôr o nosso número dois pra fora (para não confundir com o dos outros, ou do cachorro). Melhor ainda: pô-lo pra fora de nós, dentro do vaso sanitário. Melhor ainda do que o melhor ainda anterior: a gente vai dar à luz o nosso número dois. E esse “parto” — chamemo-lo assim, com todo o respeito aos bebês recém-nascidos, que não se confundem com o número dois, embora também produzam-no — nos dará prazer e nos deixará felizes. Você retarda o que o fará feliz, mas o faz.

Então, esperar pra ser feliz em casos como o de fazer o número dois vale a pena. O problema é quando a gente retarda injustificadamente outras coisas que devem ser feitas para se alcançar a felicidade (ou o prazer, como queiram). Por medo, por leniência, por acomodação, por burrice, por falta de ousadia, por covardia, por preguiça, por dinheiro, por apego ao que não tem valor, ou por desapego ao que tem.

Não se justifica retardar indefinidamente o vestibular para o curso de mais difícil acesso e conclusão, em favor de um para cuja profissão não se é vocacionado; uma separação, para manter-se numa relação (amorosa, ou não) que você sabe só o deixará mais infeliz do que já está. Não se justifica retardar indefinidamente aquela viagem tão sonhada, aquela compra desejada, aquela rotina de exercícios físicos necessária e ainda não implementada. Não se justifica retardar indefinidamente o desapego a um amor perdido ou inalcançável. Não se justifica retardar o direito de viver, ser feliz e sentir prazer, porque outros (ou você mesmo) desejam que você morra.

Fazer o número dois pode aguardar. Viver, não.
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Também publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de domingo - 04/07/2010, pág. A4.

domingo, 30 de maio de 2010

Respeitem o maior clássico do estado

Quando você pensa que já viu tudo de ruim no futebol de Alagoas, mais precisamente daquele vindo da capital, constata que a fonte é mesmo inesgotável aqui na terrinha.

Como é que se tem a “brilhante” ideia de realizar jogos-treino entre os maiores rivais do estado, acostumados – os seus torcedores mais velhos, é bem verdade – a assistir a disputas memoráveis, limpas (sem spray de pimenta e sem um cai-cai desmesurado) e testemunhadas por duas multidões de torcedores? Pior: como se tem o desplante de tornar essa ideia uma realidade? Não! O pior vem agora: como é que se tem o, digamos, devaneio de chamar esses dois amistosos (que na verdade, excetuado o fato de que se dariam entre dois rivais históricos, não passariam de jogos-treino, como tratei de situá-los logo no início da crônica) batizando-os com nome de torneio? Torneio entre dois? I Desafio das Multidões? Os times se formando, seus jogadores mortos em campo, desentrosados, com esquema tático sofrível (e aqui estou sendo generoso)... Seria risível, não fosse triste, lamentável e, por isto mesmo, vergonhoso.

E a participação das duas torcidas? Essa foi um caso à parte. Somente aqueles que não conhecem minimamente as voltas que o futebol dá, ou tem, para imaginar que esses dois jogos-treino, com as características acima citadas e completamente previsíveis, e sofrendo a concorrência da TV, tupiniquim e do sudeste do país, pudesse atrair um número considerável de torcedores. No final, um quase fiasco, comparativamente à história do clássico CRB X CSA, que com justeza se denomina Clássico das Multidões.

Não bastasse, nossas autoridades responsáveis pela segurança em jogo de futebol entre agremiações rivais não se sentiram capazes de permitir, ao menos, que ambas as torcidas se fizessem presentes em cada um dos amistosos. Não! Num, em que o mando de campo era azulino, somente poderiam ingressar no estádio torcedores com a camisa do time mandante. E vice-versa. Não imagino isto acontecendo em jogos entre as maiores e mais violentas torcidas (organizadas) do país. Mas em Alagoas é assim mesmo. Somos muito mais competentes em se tratando de segurança...

Eu, como regatiano que sabidamente sou, somente “pude” ir ao segundo jogo, já que ir pra não torcer não tem a mais mínima graça. Donde só me restara o jogo-treino na Pajuçara. E que jogo! Pense num troço ruim de ver! Na verdade, a única emoção trazida, à exceção dos gols, seria decorrente de serem rivais históricos. Mas, convenhamos, é muito pouco para se desrespeitar, dessa maneira, o maior clássico do estado. De qualquer modo, no que toca ao Regatas serviu de alerta. Ou esse time melhora, ou a Série C, também ela, vai deixar saudade. Quanto ao CSA, apesar de tão ou mais sofrível o futebol apresentado, é difícil imaginar que não retornará à 1ª divisão do Alagoano.

Por fim, não poderia deixar de comentar, infelizmente, a maior emoção sentida se deu por obra e graça da claque do CSA (presidente, diretores e muitos arrogantes seguranças), que desrespeitando aqueles que, obedientes à determinação das autoridades de segurança (equivocadas, embora) e em respeito à torcida azulina, não foram ao jogo anterior vestindo qualquer camisa alusiva ao Galo, compareceu à Pajuçara com a camisa identificadora de seu time. Será porque seu presidente é político e alguns políticos de nosso estado pensam que essa condição lhes confere o direito de fazer o que bem querem? Bom, seja como for, “caíram do cavalo”. Ops! Da cabine onde se encontravam. Ah! Não posso negar! Senti imenso prazer em vê-los saindo, expulsos pelos torcedores regatianos alojados nas cadeiras do Severiano Gomes Filho, que não se calaram e exigiram, continuada e insistentemente, a retirada da turma. E meu filho adolescente, e o de minha namorada, ali testemunhas dos fatos, puderam aprender que nem sempre o melhor é calar. Mesmo quando a “causa” pareça irrelevante.

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Também postada no sítio Futebolalagoano.com

domingo, 9 de maio de 2010

Mãe

Queria porque queria escrever algo pra você, mãe. Mas você prefere não receber cartão porque invariavelmente se emociona, chora e o coração acaba sendo perigosamente exigido. E você tá pra lá de certa. Deixa quieto. Também não sei como escrever pra você sem parecer piegas. É tudo tão intenso, tão forte. Mas aí tive a idéia de escrever uma pequena crônica e postá-la no blog. Pronto. Resolvido. Você certamente nunca a lerá, simplesmente porque não acessa a internet. Assim, não se emociona. Afinal, o que os olhos não veem (ou leem) o coração não sente, não é mesmo?

Voltei à nossa casa faz pouco mais de 10 anos. Resultado: como os outros vividos em sua companhia, estes são sempre os melhores. Eu havia saído tão cedo, né, mãe? Os primeiros dezoito anos de vida são muito pouco. Talvez mais pro filho, porque só vai se entender gente lá pela adolescência, que por natureza é egoísta e “independente” dos pais. Assim, durante aquela fase pouco os curte. Voltar depois de tanto tempo foi um presente divino. O caminho até a volta foi meio tortuoso, é fato, mas não se diz (e é verdade) que Deus escreve certo por linhas tortas?

Sabe, mãe, vou te dar um retorno que somente filhos podem dar. Conheço a mãe de muita gente, de muitos amigos e amigas. Conheço um tanto de mãe, mãe. Mas nenhuma, nenhuma é mais mãe do que você. Podem até existir mães iguais a você — e certamente há muitas, porque Deus, na sua infinita bondade, não seria bom somente pra mim, claro —, mas melhor do que você, apostaria a minha vida: não há.

Todos os dias, todos os dias, mãe, agradeço a Ele por ter você e meu pai comigo. Acho até que quando a encontro aqui em casa, quando invariavelmente entro no seu quarto ao acordar, para vê-la, ou quando tomamos café da manhã juntos, ou quando chego à noitinha e você está na sua cadeira preferida vendo TV, ou fazendo suas palavras cruzadas de letras enormes (melhor para enxergar), ou rezando seu terço diário, ou me dizendo um vá com Deus quando saio, quando me abraça em silêncio, ou quando me diz um “te amo”, baixinho, no meu ouvido, acho até que em todas essas vezes eu agradeço a Deus por você, mãe.

É..., não dá pra descrever o que sinto. É mesmo difícil falar de você sem ter vontade de chorar, sem constatar o quanto sou feliz, o quanto sou abençoado, o quanto tenho de continuar agradecendo a você e a Ele. Agradecer. Agradecer. Agradecer. E agradecer. Você não é uma mãe, mãe. Você é “a” mãe. E ainda bem que “a” mãe é, justamente, a minha mãe.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Razão ou coração?

Quando a gente para pra pensar de logo percebe a força “natural” do coração. Aliás, natural está entre aspas porque, inerente ao ser humano a razão, também natural o é. E digo coração, não emoção, porque quero ressaltar aquela que se sente quando se está apaixonado, que popularmente falando me soa mais adequado.

Mas embora naturais sejam ambos, o coração é como que mais próximo da gente, mais próximo do animal que, afinal, somos. O coração é instinto. A razão? É intelecto. É o coração que mais naturalmente nos move, ou tenta nos mover. E dificilmente a razão consegue imprimir esse movimento, quando o coração não o quer, sem parecer antinatural.

No carro das paixões, a verdade é que o coração é o acelerador, enquanto a razão, o freio. Parafraseando Arnaldo Jabor, a razão seria prosa; o coração, poesia. Ou Rita Lee: este, sexo; aquele, amor.

Apaixone-se pela mulher “errada”! O coração diz: quero. E vai com tudo. A razão: caia fora. E tenta freá-lo. O coração instintivamente vê-se dominado. A razão tenta livrá-lo daquela, para ela, equivocada escolha. O coração te acelera; a razão tenta frear-te. Normalmente, e isto é o mais chato — mas a nossa sorte —, a razão é que está certa. Aliás, a razão é uma chata. É como aquele amigo que te puxa as orelhas, tenta abrir-te os olhos para o perigo. Você o detesta, na hora; mas se ouvi-lo, agradece-o, depois.

Tente apaixonar-se pela mulher certa! A razão diz: vá. Ótimas qualidades. O coração,... nem tchum. Tá nem aí. Você pode até tentar atendê-la, seguir suas recomendações, mas o coração permanecerá independentemente forte na sua indiferença, às vezes até no seu desprezo. A razão abdica do freio, para tentar tornar-se acelerador. O coração simplesmente não acelera, servindo-te, aí, de freio. A razão pode até vencer, mas você jamais se sentirá vitorioso. Nessas horas, a razão, embora na sua habitual frieza possa estar certa, permanece incompetente face ao coração. O coração é independente e livre. A razão limita o exercício dessa liberdade. Ou tenta.

O coração, embora mais próximo nos pareça, pode ser traiçoeiro, justamente porque desafeiçoado de razão em suas escolhas... Pode te fazer entrar numa "barca furada". E aí, amigo,... reze. Se você não atendeu à razão, ou se esta adormecera,... reze. E tente, ainda que vítima do naufrágio anunciado, ainda que se sentindo um Robinson Crusoé da paixão, atender à razão. Tardiamente que seja. Afinal, nunca é tarde demais.
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Também enviado à publicação no jornal Gazeta de Alagoas e postado no sítio www.talentos.wiki.br

terça-feira, 6 de abril de 2010

Algumas palavras sobre... ela!

Dá medo só de falar. Escrever, então... Não tanto dela, em si. Da palavra. Ouço Billie Holiday enquanto escrevo. Já morreu. Olho ao redor e vejo Jesus, Nossa Senhora (e as suas várias designações: de Fátima, Desatadora dos Nós e da Aparecida), Santo Expedito, São Judas Tadeu e Santa Catarina, imagens que tenho no meu pequeno “santuário”. Também já morreram, e há muito tempo. A revista ao meu lado está aberta na página de uma reportagem sobre o genial cronista Armando Nogueira, morto recentemente. A morte está sempre por perto, como que não nos deixando esquecê-la.

Fantástica essa história de vida após a morte. Acredito mais do que desacredito. Dúvidas demais tenho. Sempre desejei manter contato com meus avós. Fiquei na vontade. Eles nem tchum pra mim. Também nunca fiz nada pra isto. De certo modo, acho que tomaria um baita dum susto se me aparecessem aqui no quarto. Principalmente à noite, como agora. Hum,... melhor mudar de vertente.

Tenho muito medo de que meus filhos se vão antes de mim. E também tenho o mesmo medo quanto aos meus pais. Assim, ou quero ir antes deles, ou não quero que eles vão sem mim, ou simplesmente não quero que morramos. Nunca. É aí que concluo que a morte só atemoriza quando pode virar pra quem a gente ama. E só é tão ruim porque não sabemos se vamos nos encontrar depois, todos já mortinhos, e se lá é bom, pelo menos igual aqui. Aí vem esse medo e essa sensação terrível de separação eterna. Isto é o que lasca tudo. Se a gente soubesse que iria se encontrar depois (de certeza!), a dor da morte seria muito menor. Algo assim como uma longa viagem: você sabe que se tudo correr bem deverá reencontrar o viajante. E como lá não teria morte, porque já estaríamos mortos, o reencontro seria certo.

E os animais? Pra onde vão quando morrem? Sim, porque os animais têm alma, estou certo. Será que vou me encontrar com a Kika, quando morrermos? Será que lá se dorme, e de manhã ela vai permanecer toda respeitosa em sua casinha feita de nuvem, por saber que quando acordo não gosto de latido, nem de pulos de alegria em minhas pernas, com o rabinho balançando por me ver? (Calma, leitor, quando volto do trabalho ela tem permissão pra me saudar efusivamente) Eita! Será que vou ver o Hippie? Esteve comigo uns bons anos. Não ligava a mínima pra ele, mas do meu jeito o amava. Só quando estava doente é que eu me dignava a dar-lhe bolachas mimosa na boca. E se ele já reencarnou? E se a Kika é o Hippie reencarnado? Vou prestar bem atenção d’agora em diante.
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Também postada no sítio Talentos - prosa e poesia
Enviada à publicação no jornal Gazeta de Alagoas
Foto:
http://seculoxiv.files.wordpress.com/2009/04/morte.jpg

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Dr. Dirceu Falcão: uma lembrança

A Marlena, minha ex-professora (eterna professora é mais verdadeiro) de Direito Comercial da UFAL — bem, eu a chamo assim, por Marlena mesmo — veio nos brindar (a meus pais, a mim, enfim, a esse ramo de nossa família), dia desses, com um conjunto de três belos livros (memoriais) sobre a vida e obra do nosso querido parente falecido (irmão dela), Dirceu Falcão, o Dr. Dirceu, médico respeitado e venerado mundo afora, justamente homenageado pelo Município de Maceió não faz muitos dias.

A crônica é singela. Não está, naturalmente, à altura daquele alagoano de escol, mas vai assim mesmo. Como Dr. Dirceu não era homem de mais-mais-mais certamente não estará nem aí para o pouco ortodoxo tema que desenvolverei. Com sorte até talvez do fato se recorde e, assim, divirta-se um pouco, enquanto a todos de lá de cima vê e por todos zela. Do mesmo modo que um dos livros veio recordar-me de que Dr. Dirceu era azulino (torcedor do CSA).

Pois bem, voltando ao caso que me dispus a contar, tinha eu meus vinte e poucos anos, quando vim do Recife, onde estudava Direito, para fazer uma pequena cirurgia no..., digamos, pinto (Eita! Mamãe vai odiar essa história de pinto). Excesso de pele (fimose) entende? “Pronto, mãe, já disse, e em plena crônica. Esquenta não, daqui a pouco ninguém nem se lembra mais dela. E não vou entrar em maiores, nem menores, detalhes. Juro!”

Pois bem, dizia eu que vim operar o velho (maneira de dizer) e fidelíssimo amigo com ninguém menos que o Dr. Dirceu. Ele que já tinha feito, salvo engano, ao menos dois dos três partos de minha mãe (o em que nasceu minha irmã mais nova tenho certeza, pois que eu já contava 10 longos anos de vida), cirurgião gabaritadíssimo. Sua clínica era na Pajuçara. Cheguei, meio tenso, mas tudo correu bem durante a cirurgia, felizmente.

Realizado o curativo no dito cujo, com gaze e esparadrapo, fiquei de retornar à clínica no dia seguinte (acho) para fazer um novo. Isto se repetiria mais uma ou duas vezes; a memória me falha. Ocorre que o primeiro problema residiu justamente aí. A desgraçada da gaze havia grudado numa pequena parte da incisão. Meu caro leitor, pense! pense na dor! Foi horrível, insuportável! Eu gritava, gritava a não mais poder. Barulho da peste, os meus gritos ecoando pela clínica. E Dr. Dirceu dizia: “Calma, rapaz! Calma! Mas que bicho frouxo!” “Frouxo porque não é no senhor”, balbuciava atrevido, com lágrimas nos olhos, enquanto ele sorria, mangando de mim, mas um pouco surpreso com meu, para ele(!), exagero.

De volta ao Recife — não podia ficar perdendo aula —, mais sofrimento. A tal da partezinha onde a danada da gaze grudara teimava em não cicratizar. Eu ia pra Faculdade com a calça mais folgada (jeans, nem pensar) e sem cueca. Mais: onde havia os pontos — não lembro se já tinham sido tirados, ou caídos naturalmente; creio que não — eu cobria, abundantemente, com pomada anestésica. Um suplício! Nem queira imaginar! Andando pela Faculdade de pernas abertas, para evitar o bate-bate, e com a calça melada de pomada (os livros naturalmente carregados meio na frente, pra disfarçar). Os caras zoando comigo. E à noite eu ligava pra Maceió: “Mãe, esse troço não fica bom! Continua incomodando! Dr. Dirceu deve ter errado em alguma coisa” (haja atrevimento, hein?). “Calma, meu filho! Que errou nada! Você está é preocupado. Venha pra Maceió no próximo fim de semana pra conversar com ele.” E fui.

Abatido, estressado, barba por fazer, lá fui eu à clínica num sábado pela manhã. Dr. Dirceu pediu para conversar a sós comigo. Ouviu-me e começou a me dar conselhos; nada ortodoxos, certamente, mas você pode imaginar, se lembrar-se onde se dera a cirurgia. Além de alguns impublicáveis — que expressamente me recomendou adotasse já naquele sábado, mais tardar segunda-feira —, disse-me pra que eu fosse tomar banho de mar, não sem antes barbear-me. Só do papo com ele já saí de lá outro. Alegre, disposto, confiante, tranquilizado, animado. Fui imediatamente cumprir suas recomendações. Afinal, prescrições médicas a gente tem que seguir religiosamente, não é mesmo?

Assim, já em casa, tomei um banho, barbeei-me, vesti o calção (homem usa calção; short é de mulher) mais folgado que encontrei e fui à praia do Francês com um amigo. O mar estava convidativo e eu sabia que teria que banhar-me. Então fui entrando n’água. Devagar, molhando de pouquinho, até que mergulhei de cabeça. Meu irmão, passados alguns segundos,... que dor da pega! O danado do sal do mar castigou meu bichinho dodói com vontade! O troço ardia demais da conta! E pra disfarçar a dor, sabido que a praia estava cheia de gente? Pense na agonia... Mas enfrentei bravamente a empreitada, ainda que trincando os dentes.

Pois foi um santo remédio! Não se passou meia hora estava eu tinindo de bom, quase sem sentir mais nada, feliz feito pinto n’água (sem trocadilho). Passei o resto da tarde no Francês, já imaginando, todo serelepe, as providências a adotar para cumprir as demais recomendações do agora novamente querido, sábio, gente boa, fantástico, competentíssimo Dr. Dirceu.

No dia seguinte meu melhor amigo já estava praticamente sarado! E então pude fazer o teste final, completando o receituário que me passou, no qual passei sem maiores problemas, pra minha felicidade. E claro que esta foi a melhor parte de suas prescrições. E o que eu faria sem elas?

Ah! Bendita água salgada do mar! Bendito Dr. Dirceu! Só não entendo uma coisa: como é que ele foi torcer logo pelo CSA? Um cara tão inteligente... Isto, sim, é imperdoável.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O ASA gigante, o jogo e um estranho torcedor

A cidade era Maceió. O local, um bar, na orla marítima. Cheguei cedo, com alguns amigos, para pegar uma boa mesa e assistir ao jogo Vasco da Gama x ASA, válido pela Copa do Brasil. Partida “de volta”, a realizar-se em São Januário, estádio do time carioca. Ao ASA interessava apenas a vitória ou um empate tipo 2 x 2, em diante. Fosse 1 x 1, a partida seria decidida por cobrança de pênaltis. Fosse 0 x 0, ou vitória do Vasco, este se classificaria. O dia: quarta-feira, 31/03/2010. A hora: 21:50h (porque não se pode atrapalhar a transmissão da novela global das 21h, outrora das 20h, claro).

O ASA começou jogando bem, enfrentando o time da cidade da TV Globo em igualdade de condições, dentro do seu estilo e das particularidades de estar jogando fora de Alagoas contra um time muito mais poderoso financeiramente e, portanto, com uma história mais destacada e vitoriosa do que a agremiação de Arapiraca. A propósito, alô! locutor do Rio de Janeiro: não é Associação... É Agremiação! Informe-se um pouco melhor, antes, afinal é o mínimo que você deve fazer.

Mas eis que o Vasco consegue furar a barreira armada pelo competente técnico Vica e cala os alagoanos torcedores presentes no bar. Torcedores de ocasião, como eu (pois que de coração sou regatiano), ou não. Felizmente não demorou muito e a gente pôde gritar gol também. E foi bonito de ver e ouvir. Eita Alagoas da peste! A partida estava empatada e, no fim das contas, o gol do Vasco fora favorável ao ASA, já que com 1 x 1 o Vasco teria que correr atrás do prejuízo, sob pena de ter de decidir nos pênaltis. E não tivesse o Fábio Lopes, atacante do ASA, perdido um gol que minha avó, fosse viva e estivesse compondo o elenco, decerto faria, a história da partida seria outra. Mas não concluiu em gol, e no segundo tempo viu-se um ASA diferente, cansado e, após sofrer o segundo gol, abatido. O resto a gente já sabe: Alagoas perdeu de 3 x 1. Um placar, infelizmente indigesto, mas justo. Fazer o quê?

Lá no recanto onde estávamos havia mais presentes torcendo pelo ASA do que pelo time dos cariocas. Natural. Afinal, estávamos em Maceió, capital e tão alagoana quanto a cidade plantadora de fumo. Os (torcedores) do Vasco que lá estavam presentes naturalmente seriam alguns turistas cariocas (Maceió ainda recebe muitos, nesta época). Pois bem, um dos torcedores alagoanos me chamou a atenção, pois bastante exaltado, no melhor sentido da palavra. Torcia vivamente pelo time de Arapiraca. Até ouvi, da boca de um dos que o acompanhavam, que era filho daquela pujante terra do agreste alagoano. Sem dúvida bela a movimentação realizada por aquele torcedor, e por mim presenciada, em torno do time de suas raízes. Mas quando fui me deter em observá-lo melhor,... confesso que fiquei confuso. O cidadão estava vestido com a camisa do Fluminense... De início pensei que fosse um time também de Arapiraca. Mas não! Era do Fluminense do mesmo Rio de Janeiro do Vasco, então opositor do ASA. Oxe!

Aí deu um nó na minha cabeça, desculpe-me a ignorância, leitor. Eu me perguntava, então: Mas ele não é filho de Arapiraca? E o ASA não é da terra campeã em produção de tabaco no Brasil? Oxe! E por que a camisa do Fluminense a vesti-lo? Foi quando ouvi sua explicação: ele era torcedor do Fluminense, do Rio de Janeiro, e também do ASA. Vôte! Se já não estava compreendendo, agora menos ainda. Afinal, por que ele torcia também por um outro time? Mais: por que por um time de outro estado, de outra cidade, de outra região? Times de futebol, afinal, são sempre rivais, ainda que potencialmente, pois sempre poderão vir a se enfrentar. E aquele não tinha nada a ver com sua história, seus costumes, suas raízes... Nesse ínterim ouvi quando alguém lhe disse, meio agressivamente: “Você não é ASA! Você é Fluminense! Olhe a sua camisa!” Aí, não sem um certo constrangimento, ele respondeu: “Se o ASA estiver jogando contra o Fluminense, sou ASA!”

Estupefato! Fiquei, não vou mentir!... Então ele era, de fato, torcedor dos dois times! Mais: embora afirmasse que torceria contra o Fluminense na hipótese deste jogar contra o ASA, pra mim era mais torcedor do time do Rio, afinal, em pleno jogo do ASA estava vestido com a camisa do time carioca! E outra: será que estaria torcendo pelo ASA movido também pelo sentimento de rivalidade que existe na Cidade Maravilhosa entre o próprio Fluminense e o Vasco? Tava incompreensível o negócio. Outra pergunta, de qualquer modo, não me saía da cabeça: se ele era alagoano, se era filho de Arapiraca, se ele gostava de futebol e Arapiraca tinha time de futebol, se ele torcia pelo ASA, que era da sua terra natal, por que cargas d’água torcia também por um time de uma terra tão distante e tão diversa da sua? Acaso seria uma espécie de retribuição? Tipo: haveria, talvez, alguns cariocas torcedores do Fluminense que também seriam torcedores do ASA de Alagoas? Hum... Creio que não. E por acaso o seu ASA não lhe era suficiente?

Eu, hein? Felizmente deve ser um caso isolado... É,... certamente não devem existir outros torcedores alvinegros, regatianos e azulinos que também torçam por algum outro time, do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Claro que não, ora. Afinal, somos alagoanos e temos time pra torcer. Né, não?
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quarta-feira, 31 de março de 2010

Jornalista e torcedor: por que não?

Talvez não faça jus à sua grandeza o realce que pretendo aqui extrair da passagem por este mundo do ilustre jornalista e genial cronista Armando Nogueira. É que o destaque (e consequente reflexão) é à sua condição explícita de torcedor, exaltada e decantada, sendo, como era, jornalista e cronista.

Armando Nogueira trabalhava no Rio de Janeiro e era declaradamente torcedor “doente” do Botafogo, que é do Rio de Janeiro (como todos sabem). E não sofria, por isto, contestação séria à sua imparcialidade enquanto jornalista ou cronista. Seus leitores, de lá e espalhados país afora, sabiam — porque ele fazia questão de deixar claro — de seu amor, de sua predileção pelo time da “estrela solitária”. E ao assim agir Armando Nogueira demonstrava o respeito que tinha por quem viesse a lê-lo (e recebia, até por isto, do mesmo modo, esse respeito). Suas crônicas, suas matérias jornalísticas, fossem sobre qual time de futebol fossem, podiam portanto ser avaliadas sem segredos, sem subterfúgios, de cara limpa. Ali estava um profissional que buscava ser imparcial (não necessariamente desapaixonado) em suas crônicas e matérias jornalísticas, mas que não negava as paixões que nutria enquanto homem comum. Para o leitor, por sua vez — a quem por dever ético à profissão que abraçou, e a si mesmo, deve igualmente respeito e consideração —, era reconfortante saber “onde estava pisando”. Afinal, como saber se alguém está sendo imparcial se suas preferências pessoais sobre o tema comentado lhe são omitidas ou escamoteadas?

Em grande parte da imprensa de outros estados (da daqui, também), entretanto, ocorre o contrário do que com sua prática ensinava o grande mestre, com raras exceções. Talvez por temer-se o julgamento do público (torcedor), talvez por entender-se que a imparcialidade na profissão não convive com a parcialidade fora dela, ou por outra razão qualquer, omite-se a paixão pelo time por que se torce. Receia-se o crivo da parcialidade, quando se daria exatamente o contrário. Tampouco é o caso de resguardo à privacidade do profissional.

Jornalista ou cronista esportivo que torce por algum clube de futebol da região onde trabalha — a grande maioria, em Alagoas, por exemplo, certamente torce, em segredo(!), por CRB, ou CSA, ou ASA — deveria ter a boa prática, para com seu público (formado de torcedores como ele), de declinar sua predileção, porque somente assim estaria(á) conferindo a esse mesmo público a oportunidade de avaliar, quanto à perseguida imparcialidade — conferido-lhes todos os instrumentos a tanto —, a informação ou opinião que lhe é formulada.

Assim penso, enquanto cronista (quem escreve crônicas, modestas que sejam, como são as minhas). Assim sinto, enquanto torcedor — público leitor, ouvinte e telespectador —, que antes de cronista, também sou.
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Foto: globoesporte.com (alterada/redimensionada)
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