F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

sábado, 17 de novembro de 2007

Operação Caça-Fantasmas

Crônica

Nesses tempos de operações policiais nominadas — a última, a Operação “Carranca” —, bem que se poderia criar uma outra, que me veio à mente há pouco.

Como sabido, a atual busca investigar suspeitos da prática de atos delituosos contra o erário: licitações fraudulentas, recebimento de propinas, superfaturamento de obras, etecétera. Tais condutas delituosas culminam por impingir inaceitável prejuízo ao erário. O dinheiro público foi ou é surrupiado, desviado, ou dê-se o nome que se queira, em prol de seus partícipes, arquitetos, cúmplices, coniventes, e por aí vai. A fonte, e a vítima, pois, é o dinheiro público.

Após assistir ao noticiário acerca dessa Operação “Carranca”, vi-me refletindo sobre uma outra forma de locupletamento bastante corriqueira em nosso Estado. Essa é buscada por vezes sem constrangimento. Com efeito, não raro a ambição por inserir-se entre os beneficiários é até alardeada: “Ah! Quem me dera um desse...!” Agora, quem já goza do “privilégio” tende a ser mais discreto. Aqui também há burla à lei. O Estado também sofre prejuízo. O dinheiro público é também gasto ilicitamente.

Refiro-me aos funcionários públicos fantasmas, essa categoria invisível de servidores que, outrossim, jamais se deixa ver — com trocadilho — em seu suposto local de trabalho, quando há um. Esses(as) servidores-fantasmas, apesar de não dedicarem um minuto de seu decerto preciosíssimo tempo ao labor, ao fim do mês recebem sua remuneração, inobstante esta fosse devida apenas como contraprestação pelo serviço prestado. Aqui, portanto — tal qual quem favorece licitações, obras públicas superfaturadas, desvia verbas de merenda escolar, e tantas outras safadezas (ops!) —, há também percepção injustificada, porque ilícita, de dinheiro público.

Então, imaginei a notícia: Acondicionados em diversos ônibus previamente alugados para tal fim, as Polícias Federal e Civil levam presos inúmeros supostos servidores-fantasmas, integrantes de quadrilhas especializadas nesse tipo de crime no país, finalmente identificados (e visualizados). As autoridades suspeitas de lhes terem conseguido a “vaga” integram o grupo.

Concordo que a condição de invisibilidade dos suspeitos dificultaria a investigação policial, mas sempre é possível socorrer-se daquele grupo especializado... humm... Como é mesmo o nome...? Ah, os Caça-Fantasmas. Pronto, o nome já tem: Operação Caça-Fantasmas! Legal...


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Publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 17/11/2007

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Escárnio? Qual'é?!

Crônica
Quando era governador do Estado da Paraíba, lá nos idos de 1993, portanto há cerca de 14 anos - bota tempo nisso, hein?! -, Ronaldo Cunha Lima, durante, ou após (nem lembro direito), discussão travada com o então ex-governador do mesmo Estado, Tarcísio de Miranda Burity, deu três tiros de revólver no dito cujo, supostamente irresignado com críticas que aquele teria desferido contra seu filho e atual governador, Cássio Cunha Lima, à época Superintendente da SUDENE. Burity acabou falecendo[1] e o então governador-poeta - sim, Ronaldo Cunha Lima gostava de recitar uns versos; lembro de tê-lo visto no Programa do Jô, há bastante tempo atrás, não sei quanto: oh, memória! - foi processado criminalmente.

Por ter foro privilegiado, e tendo em vista que Cunha Lima, desde então, exerceu ininterruptos mandatos no Congresso Nacional, a ação tramitou no Supremo Tribunal Federal - STF. Aliás, essas seguidas eleições - não me perguntem quantas porque não pesquisei, nem vou pesquisar - me fazem concluir que seus eleitores, surpreendentemente, se não aprovaram, ao menos não desaprovaram seu, digamos, gesto.

Pois bem, o processo se arrastou por todo esse tempo. Quando finalmente fora designada a data para o julgamento do deputado, Cunha Lima renuncia ao mandato. Detalhe: na véspera do dia designado para o desenlace da contenda pelo STF. O agora ex-deputado, em sua carta formalizando a decisão, explicou que o fazia para que o povo o "julgue, sem prerrogativa de foro, como um igual que sempre fui." Ha-ha-ha! Engraçado, o ex-deputado-poeta.

A família de Tarcísio Burity se indignou com o inesperado ato do politico-artista Cunha Lima. O Ministro-Relator da ação penal desde 2003, Joaquim Barbosa, também se mostrou irresignado com o que classificou de ato de "escárnio com a Justiça brasileira em geral e com o Supremo em particular". E embora tenha ressalvado que ele tinha "o direito de renunciar", o escárnio estaria na intenção do ex-deputado, que seria a de "impedir que a Justiça se pronunciasse."

Naturalmente, não há um senão a opor quanto à reação da família da vítima. Retrata a legítima dor de quem perde um ente querido naquelas circunstâncias. A minha estranheza é com a de S. Exa., o Ministro-Relator, embora, no tocante à justificativa de Cunha Lima para a renúncia, concorde com ele quando diz que foi um escárnio. Isto é, o escárnio estaria na afirmação de que a renúncia foi para que pudesse ser julgado pelo povo. Ri da galhofa, lá atrás. Rio de novo, agora. Ha-ha.

Porém, abstraindo essas razões de foro íntimo declinadas pelo réu, não posso entender a indignação do ilustre Ministro. Ora, o sujeito está sendo processado criminalmente! O que S. Exa. esperaria dele? Que pedisse as chaves da prisão e espontaneamente fosse até lá, trancafiasse-se e jogasse a chave fora? Que não se defendesse, usando de todos os artifícios que o sistema legal, que integra e defende S. Exa., lhe põe à disposição? Que, dentro do que as leis processuais vigentes lhe permitem, não se utilizasse de todos os meios para defender-se?

Ora, ora, ora... Sabendo que a renúncia faz o processo voltar à estaca-zero, bem como que, por ter já 71 anos, o prazo prescricional é reduzido — o que deverá levar ao arquivamento do processo nos idos de 2013 —, é extremamente razoável esperar-se que assim procedesse quem não desejasse ser preso, ora! Fosse ao desamparo da lei qualquer ato praticado pelo ex-deputado, durante o trâmite processual, certamente teria sido punido! Não se tem notícia, porém. E daí, portanto, que o então deputado tenha renunciado à véspera da sentença? Não é legal seu ato? Não tinha, ele, o direito de fazê-lo até antes da prolação da sentença? Então como o tacha, o Sr. Ministro, de um escárnio à Justiça brasileira ou ao STF?

Escárnio é o sistema legal prever essa situação. Escárnio é um crime ocorrer há 14 anos e não ter sido ainda julgado. Escárnio é o foro privilegiado para delitos comuns, agravado pelo fato de a corte julgadora não dispor de estrutura para processá-lo. Escárnio, enfim, é dizer que é escárnio exercer um direito em sua própria defesa, direito reconhecido e, outrossim, acolhido por quem o diz. Que a família ou o leigo o diga, entende-se perfeitamente. Por quem diz de quem é o direito e deve assegurar o seu exercício, não dá pra entender. Ou dá?

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[1] Alguns anos depois, por causas consideradas não decorrentes dos tiros que lhe foram desferidos.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Quando vive a democracia?

Crônica
Numa democracia representativa o povo participa do governo por meio de seus representantes, por ele eleitos. A democracia, por outro lado, imprescinde da submissão da minoria à vontade da maioria, respeitados os direitos e a livre expressão daquela. Nesse norte, considerar-se injusto o resultado de uma disputa decidida no voto é legítimo. Também o é defender que poderia ser outro, noutras condições. Não o é, porém, o desrespeito ao resultado havido.

Tampouco há democracia quando a informação é difundida por uma única voz. Não basta a liberdade individual de expressão se somente uma versão é difundida pelos grandes meios de comunicação. O monopólio, ou oligopólio, da informação traduz ditadura mais perigosa do que a tradicionalmente conhecida, porque escamoteada sob falsas vestes de democracia. O pano é fajuto. O inimigo está escondido. Resta inviabilizado o enfrentamento justo, porque as armas são desproporcionais. O ditador não é alguém. É ninguém, e são todos os protegidos pelas idéias defendidas pelo monopólio.

Numa contenda, o ataque ao adversário necessita passar pelo exame dos atos de seus acusadores e dos fins eventualmente encobertos por sua fala. Entretanto, as vias hábeis a tornar público o que está escondido omitem-se em fazê-lo. Esconde-se os motes reais que movem o ditador fantasma a adotar tal ou qual discurso. Vale sempre uma só versão. E para os contendores amparados pelo déspota sem corpo identificável, a democracia existe até enquanto há disputa. Finda, pelo julgamento, se o resultado lhes é desfavorável, alardeiam que morreu a democracia.

Ora, desimporta tenha sido o resultado considerado justo para alguns, injusto para muitos. Irrelevante se o foi na contramão do desenlace desejado pelo ditador invisível, detentor do monopólio da informação, arvorado em juiz sem toga. Venceu a maioria. E ponto.

Penso que, aí, vive a democracia, independentemente da valoração acerca de ter, ou não, saído prestigiada, do resultado, a verdade, tampouco da desconfiança fundada, ou não, de que os julgadores não escapariam estivessem do outro lado. Entendo, sim, que vence a democracia, e vive!, quando, alheio à versão tornada oficial, única e pretensamente impositiva do ditador fantasma, o julgado reflete a vontade dos legitimados a julgar.

Insatisfeito? Mude-se os legitimados, de resto espelho de quem os legitimou. Mas submeta-se à vontade da maioria. Isto é democracia.
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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 04/10/2007.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Concerto com "s"

Crônica
Morri de rir com a zombaria dele. Sério! Quero dizer: sério, que ri. Foi tão engraçado...! Não, não sorri externamente. Quem sorriu foram minhas vísceras. Gargalharam! Meus intestinos, por exemplo, torciam-se e retorciam-se, sorrindo. Igualzinho ele sorri quando a piada enviada por um telespectador não tem graça.
Foi há alguns dias. Estava assistindo ao seu programa. Ele e mais quatro convidadas jornalistas comentando, com indisfarçável parcialidade — e humor! —, as “terríveis mazelas” desse governo.
O mote da vez: o “caos aéreo” e a tragédia do vôo da TAM, em Congonhas. Ambos, como tudo, decorrentes da incompetência e falta de ética no governo federal. Hein? Nos poderosos EUA também está havendo dificuldades semelhantes na aviação? Ainda não se sabe as causas do acidente da TAM? Ôxe! Deixa quieto!
Gostei do “debate”. É que morro de vergonha de o presidente do meu país ser um ex-operário, nordestino, que fala errado, não tem curso superior, no exterior se expressa em português, toma uma cachacinha e, suprema desgraça, diz que não gosta de ler. E com esses predicados ainda tem o desplante de se insurgir com altivez contra os poderosos países que dominam a economia mundial, liderar aqueles ditos emergentes, reivindicar para o Brasil uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU — e é considerado em sua pretensão —, querer mudar o combustível usado no mundo, para o nosso etanol, e por aí vai. Por isto que gostei. Vingança pura.

Pois bem, o comentário, agradavelmente preconceituoso e jocoso, que fez minhas entranhas rirem tanto, deu-se a partir da forçada exploração, pelo apresentador, de um equívoco na fala do novo ministro chamado a cuidar do alardeado “caos aéreo”, numa entrevista. Dizia o ministro que seria como um maestro, regendo as necessidades do país em sua área, mas “sobre” (e, não, sob) as ordens do presidente! Com irretocável humor malévolo, o ex-comediante manifestou inexistente estupefação. Fingiu-se chocado! Então o fará “acima” das ordens do presidente?!, indagou, falseando uma engraçadíssima preocupação. Minhas vísceras já começavam a regozijar-se com sua ironia cáustica. E arrematou, com uma crueldade de matar de rir: Ah! É que no governo do presidente Lula o concerto é com “s”! Ha ha ha! Todos caíram na gargalhada! As convidadas e parte da platéia. Ele também, satisfeito com sua arte. Tão inteligente...

Não ri. Deu-me embrulhos. Deve ter sido pelas gargalhadas de minhas vísceras...

domingo, 19 de agosto de 2007

É, cansei!

Crônica
Ano passado, escrevi algumas linhas demonstrando minha preocupação com nosso futuro. Estávamos às vésperas da eleição para Presidente (ou reeleição, como vimos depois). A crônica tinha por título: “Onde iremos parar?” Um desabafo, na verdade. Não buscava respostas. Apenas uma maneira de expor minha estupefação com tudo o que vinha ineditamente ocorrendo.

Em amparo à minha irresignação, citei alguns dados da economia. Principiei pelo pagamento da dívida com o FMI. Brincadeira, não! Vazio imenso ficou. Falei também do estancamento da venda do patrimônio público — não sei pra que ficar com aquilo que restou (CAIXA, BB, Petrobrás...). E por aí fui destilando minha ira, até então contida. Trouxe à tona o absurdo aumento do salário mínimo, de 55 para 152 dólares (como pagar os empregados?), além da criação de 6 milhões de empregos — e tome inserir miseráveis na economia, só pra atrapalhar. Não deixei barato: citei o aumento da exportação, de 60 para 199 bilhões de dólares e, para finalizar, contei que o risco-Brasil despencara de 2.400 para 204. Sem dó nem piedade. Disse, mesmo!

Pois não pára de piorar! Do FMI não se ouve falar mais, mesmo! Até quase esqueci o bordão, lembra? “Fora, FMI!” Salário-mínimo, durma!, agora vale U$ 205! Os alimentos, pasme!, com desoneração tributária (por isto que, para onde você olha nos supermercados, só vê pobre). A mortalidade infantil reduzida à metade (depois reclama-se do aumento populacional). Universidade pública a rodo (pra quê?). Empregos, com carteira assinada, só fazem aumentar. As balanças comercial e de pagamentos, simplesmente superavitárias. O risco-país uma bela merreca: 1 décimo (verdade!). Até os juros estão caindo! Isto pra não dizer — saindo da economia —, da Polícia Federal, toda semana com uma Operação “alguma coisa”, ou something, e desse Desengavetador-Geral da República. E tudo isto com uma política macroeconômica ortodoxa e conservadora! Assim não dá!

Porém o principal alvo de minha irritação é o tal do Bolsa Família. Pô! Assistencialismo? Nada a ver! Afinal, comida nunca encheu barriga de miserável! Só a da gente. A fome, entenda-se, resulta de uma política — acertada! — de anos de descaso. Assim, deve-se deixar o pobre matá-la só após a realização de políticas públicas de médio a longo prazo, que dêem escolaridade e emprego para todos, etc. De preferência, claro, apenas no papel. Alguém precisa fazer algo! Urgente!

Se cansei? É... Cansei!

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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 18/08/2007, e no Boletim da Associação Nacional dos Advogados da Caixa Econômica Federal - ADVOCEF, set/2007.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Onde iremos parar?

Crônica
Eu não sabia de tantas mudanças. Juro. Vá lá, sabia de algumas, mas a maioria só agora, pela campanha eleitoral. Quais? Direi. Poucas. O espaço não comportaria todas.

Prepare-se. A dívida com o FMI (também com o Clube de Paris), depois de décadas, simplesmente foi paga. É, paga! Que chato! Já estava tão incorporada ao nosso cotidiano jornalístico e de protesto... Como será não mais participar de uma passeata e gritar o velho bordão: Fora FMI!? Não mais se encher de revolta quando o preposto do Fundo, com sua inseparável pasta preta, vinha ditar os rumos de nossa economia? Decretar moratória? De quê? Ficou um vazio... E isto sem privatizar uma só empresa estatal (das pouquíssimas que restaram), sem reduzir salários, sem convites a deixar o emprego ou o serviço públicos (com os generosos programas de demissão voluntária), sem terceirização. Ao contrário: fazendo concurso público, recompondo o poder de compra do trabalhador e fortalecendo as empresas públicas que restaram. Verdade! Não viu a Petrobrás? Tá toda, toda, só porque tornou o Brasil auto-suficiente em petróleo. Cada uma!

E não é só! Aumentou o salário mínimo, de 55 para 152 dólares, enquanto o custo da cesta básica foi majorado em cerca de apenas 15%, contra os 81% alcançados nos 8 anos do governo passado. Isto para não falar na redução (em parâmetros inéditos) da nossa secular desigualdade social, inserindo os pobres na economia do País. Já pensou? Além de brevemente não se poder sequer manter todos os nossos poucos e imprescindíveis empregados caseiros (lavadeira, cozinheira, jardineiro, passadeira, motorista, vigilante, etc.), pra onde você olha, já agora, são ex-pobres pra tudo o que é lado, participando, com você, de atos antes só seus, como comprar alimentos, roupas, etc. Parece coisa de comunista moderno. Ôxe.

Quer mais? Na campanha de 2002, ele prometeu que criaria 10 milhões de empregos. Não cumpriu. Só criou, pasme, em menos de 4 anos de governo, a ninharia de 6 milhões! E não se diga que nos 8 anos do governo anterior o foram apenas 700 mil...

Ah, ia esquecendo! Aumentou absurdamente as exportações: de 60 bilhões de dólares, o Brasil passou a exportar quase 119 bilhões. Quer dizer, no mínimo, no mínimo, não ficou nada para nós. E, não bastassem, — pra finalizar, — os investidores estrangeiros hoje nos temem menos! É que o risco-país diminuiu de 2.400 para 204. Absurdo!

Vai ver que é por isto que a Bolívia tá tão metida...
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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 26/10/2006

Lacerda: o retorno

Crônica
Nunca assisti a um debate assim. Não assim tipo deitado, sentado em casa ou numa mesa de bar. Digo assim agressivo, desrespeitoso, arrogante até.

Não fui contemporâneo de Lacerda. Quando a UDN – União Democrática Nacional foi extinta, pelo AI n° 2, não contava mais de 01 ano de vida. Porém, ao assistir ao candidato pessedebista, no debate da Bandeirantes de 08/10 próximo passado, imediatamente associei-o àquele. Não ao magnetismo do finado jornalista, mas à agressividade de seus discursos. Ali concluí o quanto é injusta a alcunha que lhe puseram: picolé de chuchu. Depois daquilo, de picolé se cuidasse, de chuchu não seria. Talvez de pimenta malagueta. Ou de urtiga. Mas não de algo inofensivo como chuchu. Foi uma briga. E, ao outro, a obrigação de se defender. À altura.

O fato é que propostas concretas para governar o país, se eleito, hummm, necas de pitibiriba. Tampouco foram por ele indagadas, ao candidato a quem é oposição. Nada. A tecla era uma só: o discurso moralista raivoso, bem aos moldes udenistas (hodiernamente herdado por seu partido e por seu principal aliado). A responsabilidade pelo tal dossiê de São Paulo — pois não é que o PT tanto fez que conseguiu levar seu candidato ao 2° turno? — e a origem do dinheiro que seria utilizado em sua compra eram compulsiva e ofensivamente indagadas ao Presidente, mesmo até agora não havendo nada objetivamente concreto que o vincule ao engenho da pasta. Sequer a lógica. Pode haver; por enquanto é “achismo”. A velha cantilena: “ele sabia”, “ele não sabia”. Ora, o homem não é letrado. Mas burro, seria?

Não se conseguiu, pois, saber muitas coisas do candidato do PSDB/PFL. Por exemplo, onde e como pretende cortar gastos (fala muito nisto). Afinal, já no manifesto de fundação de seu partido, de 1988, defendia-se o rompimento com o caráter nacionalista do Estado brasileiro e o seu afastamento das relações econômicas e trabalhistas (receituário neoliberal). Nesse diapasão, o governo de FHC, líder maior de seu partido, privatizou mais de 75% das estatais brasileiras, vendendo-as por vários bilhões de dólares, prática, entretanto, contestada por parcela significativa da população do país. Logo, natural a curiosidade, inclusive porque é o próprio ex-presidente que defende a retomada desse processo.

Mas..., um alento. Após a pendenga, o candidato Alckmin justificou a ira: “Acho que externei um sentimento de indignação do povo brasileiro!” Ah, tá!
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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 14/10/2006

Extrema abnegação

Crônica
Ouve-se muito dizer que ninguém mais se preocupa com o próximo, que o sujeito tá se lixando pro outro, que o mundo tá egocêntrico, e por aí vai. Também pensava assim. Os fatos me mostravam que permanecer acreditando no ser humano fosse, talvez, rematada ingenuidade. Até sobre a falta de solidariedade da juventude dos dias atuais, dada a descrença, escrevi.

Noutro dia, porém, deparei-me com a notícia de que seria solicitada a presença de tropas federais em várias cidades deste País, em face das eleições que se avizinham. Motivo: o clima de insegurança nesses municípios, marcado pela potencial violência prestes a ali ocorrer até o dia da eleição. A disputa entre os grupos políticos alcançara, dizia-se, um acirramento tamanho a recomendar assim se procedesse, preservadas a paz e a segurança públicas.

Bem entendido, o mote não seriam os bandidos, de dentro ou fora do PCC (não confundir com partido político, embora a semelhança me pareça tenha sido propositalmente buscada pelos marginais), a ameaçar invadir tais cidadelas ou já nelas praticando alguma atividade criminosa. Não! O motivo é a disputa, violenta, pelo voto do eleitor; a briga exacerbada pelo cargo político almejado.

Ôxe. Aí danou-se! Os sujeitos estavam se matando (ou em vias de) com vistas a ganhar uma eleição para o exercício de um cargo político? Mas como? Seria possível que a devoção à serventia ao povo fosse de tal ordem a propiciar esse engalfinhamento (ou coisa pior) entre os aspirantes? Sim, porque na essência do exercício do mandato não está o devotamento às gentes?

Raciocine comigo, decerto surpreso leitor, abstraindo, naturalmente, sua condenação à violência por eles empregada na peleja. Se, para obter um mandato, — que importa, em tese, imensos sacrifício e responsabilidade, auferindo remuneração que não enriquece ninguém (ela, não!), e sujeitando-se às legítimas cobranças da sociedade, — usa-se até de meios violentos, a recomendar, pasme(!), o envio de tropas federais para conter os ânimos, digamos, mais exaltados, então, é de concluir-se: há esperança! Mais, ousaria afirmar. Há solidariedade (com um pouquinho de excesso, é verdade)! Afinal, está-se diante da manifestação máxima do desejo de servir o outro — embora levada às últimas conseqüências por esses verdadeiros apaixonados pelo povo.

Pôxa, então estava mesmo enganado! E eu ingenuamente achando que não valia mais a pena acreditar no homem... Bah!
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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 14/09/2006

Mensalão, mensalão! Ocorreste, ou não?

Crônica
Não leia só uma. Uma versão não é bom. Todas. Duas, vá lá. Adiante, resumo apertadíssimo, quase estrangulado de tão apertado que foi. Só para ilustrar.

Reportagens: relatório da CPMI dos Correios e denúncia do procurador-geral da República. Veículo: duas respeitadas revistas semanais. Nome: o arguto leitor as identificará. Período: semanas de 09 a 15 e 16 a 22/04/2006, respectivamente. A pergunta (que não quer calar): mensalão, mensalão, ocorreste, ou não?

Revista 1. Reportagem: Relatório da CPMI dos Correios. Título: Dicionário de Falcatruas. “(...) os parlamentares produziram uma espécie de inventário de novas e de antigas maracutaias. (...) Quando as formas de corrupção que estavam escondidas se tornam conhecidas, fica mais fácil combatê-las — e é com esse espírito que o calhamaço da CPI deve ser lido e analisado.”

Revista 2. Sobre o mesmo relatório. Título: Perguntas ao Relator. “O texto de Serraglio é parcial, omisso e não prova o mensalão.” E arremata: “O relatório do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) resistiu poucas horas. Enfático, mas vazio de provas, o trabalho desagradou a todo mundo.”

Revista 1. Reportagem: Denúncia do procurador-geral da República. Título: O Sujeito Oculto. “O nome de Lula não aparece no texto da devastadora denúncia (...), mas as peças do esquema, juntas, formam a imagem do maior beneficiário de tudo: o presidente.” E continua: “Bem, se pode reclamar um recorde, o governo Lula talvez devesse ler com cuidado o texto da denúncia (...). Ali estão descritos em detalhes e com precisão jurídica os mecanismos de funcionamento do que talvez seja (...) a maior quadrilha jamais montada com o objetivo de garantir a continuidade no poder de um mesmo grupo político, o PT de Lula.”

Revista 2: Sobre a mesma denúncia. Título: O MP vai na onda. “O procurador-geral da República não consegue ir além da constatação de que houve dinheiro ilegal no processo eleitoral. (...) o procurador-geral utiliza o termo ‘mensalão’ (...). Mas (...) a denúncia (...) não acrescentou provas cabais necessárias para qualificar a crise dessa maneira. (...) algumas perguntas permanecem sem resposta: Por que petistas precisariam receber dinheiro para votar projetos de interesse da administração Lula? Como era possível manipular as votações no Congresso pagando a tão poucos? (...) Como no texto da CPI, sobra contundência e faltam provas da existência do mensalão”.

Antagônicas reportagens? Escolha. Ora.
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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 27/4/2006

Notícia quase esquecida

Crônica
Sério! Não entendi. Ou, ao revés, entendi?
Há quase um ano pipocam notícias sobre a existência do tal de mensalão. Uma espécie de mesada — não confundir com aquel’outra, do lanche, cinema com a namorada, etc. —, que seria conferida a parlamentares para votarem matérias de interesse do governo federal. Não é pouca não, a cobertura. Suspeitou-se — não raro afirmou-se — a ciência do presidente e, até, sua participação no imbróglio.
— Ele sabia! Claro que sabia! — afirmava, categoricamente, o eleitor que cria no seu envolvimento.
— Será? Ele insiste que não — refutava, timidamente, o outro, com receio (inútil) de parecer ingênuo.
— Deixe de ser bobo, homem! Não vê que esses fatos não lhe poderiam ser desconhecidos?! Tome tenência, abestalhado! Até o deputado que lhe era vizinho foi afastado! Como poderia ele não saber?! — insistia, sem paciência, o crédulo.
— Ôxe, mas se o próprio cabra que, com raiva, abriu o “bico”, falou que o dito cujo é inocente!... Aquele, do olho roxo, que foi cassado! Disse que o presidente, quando soube do diz-que-diz, até sentiu como quem levou uma facada nas costas! Ele disse! Ouvi sim! E por que diria, não o fosse? — tentou argumentar o desconfiado das versões que asseveravam a ciência do principal mandatário da nação.
— Disse, mas... não importa! O fato é que não é crível que não soubesse. Não é, e pronto! Aliás, este é um país de fé, de crenças. Portanto, se o incrível é que não soubesse, então o crível é que sabia. E se é crível, verdade o é: sabia de tudo! Tudinho, tudinho! — depois dessa acachapante dedução, restou ao incrédulo pacóvio aquietar-se.
Assim, os rumores e afirmações no sentido de sua ciência — quiçá participação — só aumentavam. Até de impeachment cogitou-se... Mas ficou nisso. Pesquisas de opinião, ao contrário, passaram a registrar sua espantosa recuperação junto ao eleitorado.
Março de 2006. Ouvi, desatentamente, na TV, a notícia de que a Polícia Federal, após oito meses de investigação, não detectara um único indício de seu envolvimento no tal mensalão. Segundo o blog do Josias de Souza, a conclusão constara de um relatório confidencial, ainda inconcluso quanto a outros pontos.
Pois não é que apesar da indiscutível importância da notícia, não se lha deu destaque que lhe fosse minimamente proporcional? Apontava conclusão da mais respeitada instituição policial do país, sobre o assunto mais comentado na imprensa. E mal se a divulgou. Por quê?
Só se eu não soube pesquisar... Ah, tá!
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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 22/4/2006