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SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

quinta-feira, 15 de março de 2007

Extrema abnegação

Crônica
Ouve-se muito dizer que ninguém mais se preocupa com o próximo, que o sujeito tá se lixando pro outro, que o mundo tá egocêntrico, e por aí vai. Também pensava assim. Os fatos me mostravam que permanecer acreditando no ser humano fosse, talvez, rematada ingenuidade. Até sobre a falta de solidariedade da juventude dos dias atuais, dada a descrença, escrevi.

Noutro dia, porém, deparei-me com a notícia de que seria solicitada a presença de tropas federais em várias cidades deste País, em face das eleições que se avizinham. Motivo: o clima de insegurança nesses municípios, marcado pela potencial violência prestes a ali ocorrer até o dia da eleição. A disputa entre os grupos políticos alcançara, dizia-se, um acirramento tamanho a recomendar assim se procedesse, preservadas a paz e a segurança públicas.

Bem entendido, o mote não seriam os bandidos, de dentro ou fora do PCC (não confundir com partido político, embora a semelhança me pareça tenha sido propositalmente buscada pelos marginais), a ameaçar invadir tais cidadelas ou já nelas praticando alguma atividade criminosa. Não! O motivo é a disputa, violenta, pelo voto do eleitor; a briga exacerbada pelo cargo político almejado.

Ôxe. Aí danou-se! Os sujeitos estavam se matando (ou em vias de) com vistas a ganhar uma eleição para o exercício de um cargo político? Mas como? Seria possível que a devoção à serventia ao povo fosse de tal ordem a propiciar esse engalfinhamento (ou coisa pior) entre os aspirantes? Sim, porque na essência do exercício do mandato não está o devotamento às gentes?

Raciocine comigo, decerto surpreso leitor, abstraindo, naturalmente, sua condenação à violência por eles empregada na peleja. Se, para obter um mandato, — que importa, em tese, imensos sacrifício e responsabilidade, auferindo remuneração que não enriquece ninguém (ela, não!), e sujeitando-se às legítimas cobranças da sociedade, — usa-se até de meios violentos, a recomendar, pasme(!), o envio de tropas federais para conter os ânimos, digamos, mais exaltados, então, é de concluir-se: há esperança! Mais, ousaria afirmar. Há solidariedade (com um pouquinho de excesso, é verdade)! Afinal, está-se diante da manifestação máxima do desejo de servir o outro — embora levada às últimas conseqüências por esses verdadeiros apaixonados pelo povo.

Pôxa, então estava mesmo enganado! E eu ingenuamente achando que não valia mais a pena acreditar no homem... Bah!
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Crônica publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 14/09/2006

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