F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Exterminadores de times

Crônica
Por Guilherme Scalzilli*

Parte da crônica esportiva decidiu que os campeonatos estaduais de futebol chegaram a um nível irremediável de indigência e previsibilidade, devendo ser extintos e substituídos por disputas mais amplas. Não surpreende que a medida seja defendida majoritariamente pela imprensa das capitais: apenas os clubes poderosos conheceriam benefícios, enquanto os interioranos cairiam no ostracismo das divisões inferiores.

É universalmente sabido que isso levaria, em pouco tempo, à extinção de dezenas de times sem recursos. As cidades menores sofreriam conseqüências negativas para o comércio e o emprego, perdendo ainda mais sua tão menosprezada identidade regional. Ao mesmo tempo, os clubes ricos ganhariam fortunas absorvendo diretamente os talentos originados nos rincões. Para dimensionar os valores envolvidos, basta fazer um levantamento dos jogadores mais badalados do país que foram revelados por times de menor expressão.

Mas apenas o aspecto financeiro não explica o apego à proposta malévola. A indisfarçável decadência técnica do futebol nacional nivelou os times negativamente, ameaçando a primazia dos chamados “grandes”. Se um rebaixamento no campeonato brasileiro soa-lhes constrangedor, semelhante fracasso em nível estadual pareceria desmoralizante, abalando certas ilusões de “grandeza” que a imprensa alimenta para valorizar-se a reboque de seus preferidos.

É essa mitologia da superioridade imanente que disfarça a cadeia de artimanhas viciadas dos gabinetes futebolísticos. O poder dos clubes privilegiados advém de uma popularidade construída com títulos que foram possíveis graças à generosidade dos contratos publicitários e de transmissão televisiva, além dos infames sistemas de repasses desiguais de verbas por parte da CBF. Para completar o cartel, resta apenas eliminar a indesejável concorrência.
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sábado, 14 de março de 2009

A triste história de Assembleia


Crônica

Há muitos anos atrás, nasciam no Brasil algumas donzelas da melhor estirpe. E por conta dessas mágicas que somente os contos de fada têm o condão de operar, vieram à luz uma em cada estado da federação, ao mesmo tempo e todas recebendo o mesmo nome de batismo: Assembleia. A fêmea que as pariu, nessas circunstâncias tão inusitadas quanto espetaculosas, chamava-se Constituição. Como o das demais, o parto da nossa, de Alagoas, foi recebido com muita alegria e expectativa, de sorte que prontamente lhe foram confeccionadas as mais belas vestes — um vistoso e majestático prédio no centro da capital, Maceió —, ainda hoje mantidas em estado digno e glamoroso.

Mas se mal ou bem permaneceram íntegras ou, quando em vez, restauradas — embora se comente que o processo último de restauração das majestáticas vestes foi mais custoso do que o normal, nele recaindo suspeitas de superfaturamento, essas coisas —, assim não se pode dizer da própria. Ao menos não da Assembleia dos seus primeiros tempos de mocidade e vida adulta, quando até, em homenagem a um de seus filhos muito queridos e ilustres, fora apelidada Casa de Tavares Bastos. Honraria imensa.

Mas Assembleia parece não vir se comportando com o decoro e a dignidade que dela se esperava e cria. Corre pelo estado as histórias mais escabrosas a seu respeito. E dizem que não são futricas, meras maledicências sopradas ao vento pelas fuxiqueiras de plantão, não. A coisa seria séria, mesmo. Fala-se que teria desviado (surrupiado, em bom português) cerca de trezentos milhões de reais daqueles a quem devia representar e defender! Imagina, só!

Bem, o fato é que de lá pra cá Assembleia, se não tem encontrado paz — dizem que o Judiciário, um primo próximo, vem perseguindo-a implacavelmente —, tampouco se mostra ao menos arrependida dos desarranjos que lhe são imputados. Ao contrário. Com a ajuda de outro primo, Executivo — que injustificadamente permanece enviando-lhe vultosa quantia anual a título duodécimo (nome que é dado a sua mesada) —, Assembleia segue a vida, alheia a tudo e a todos.

Sua mais recente atitude, tão inusitada quanto ilegal e perigosa, foi a de cerrar as portas — uma espécie de greve ou coisa parecida, já que nela ninguém entra, dela ninguém sai — sem atinar que, por isto mesmo, poderá restar cabalmente demonstrada, infelizmente, a sua atual absoluta falta de serventia. Enfim, um tiro no próprio pé (ops, pilastra). E isto não é bom.

Oh, Assembleia! Cria juízo, mulher!...

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Foto em www.amigobrasileiro.com
Também publicada no jornal Gazeta de Alagoas, de 14/03/2009, e no site BrasilWiki!