F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O show de Truman e os deformadores de opinião, por Blog do LEN

"Se um ET chegasse ao Brasil hoje e fosse se informar da situação lendo nossos principais jornais, ele provavelmente acreditaria que a única solução para salvar a população do nosso país seria uma invasão alienígena que exterminasse os sindicalistas e vermelhinhos que estão no poder, a começar pelo tirano presidente, cujo único mérito teria sido manter as brilhantes bases deixadas por Fernando Henrique Cardoso.

Se o amigo navegante estiver com o fígado em dia, sugiro que visite o Blog do Noblat, que faz um clipping de matérias, editoriais e artigos exclusivamente contra Lula, seu governo, o PT e aliados. Não vais encontrar em outro lugar coletânea igual de demonstrações de recalque, inveja, frustração e rancor vingativo.

Se você for um completo alienado ou estava em retiro espiritual por anos sugiro que não visite, você vai pensar que vivia no show de Truman e que a realidade é aquela que eles escrevem, com a convicção daqueles que sabem tudo e ainda fazem cara de blasé. Você vai imaginar que todos te enganaram, família, amigos, chefe, todos, e que nada melhorou no Brasil, só piorou, era tudo propaganda, olha a câmera atrás do espelho do banheiro. Será que essa mulher que dorme comigo há mais de 20 anos é uma atriz?

Existia no Brasil em um passado remoto, uma classe de pessoas que se consideravam a elite política do país. Ninguém se elegia sem pedir a benção e agradar essas pessoas. A concentração de verbas publicitárias para poucos veículos de comunicação desde os governos militares criou a distorção de um oligopólio de mídia, com poucas empresas (famílias) sendo responsáveis pela (des)informação da população,manipulando fatos para conseguir seus objetivos. Eles se autodenominavam formadores de opinião e, realmente devido a quase exclusividade da informação, eles detinham um poder muito grande de convencimento da opinião pública.

Com o fracasso retumbante do governo FHC aumentou a percepção do viés partidário com que a velha mídia lidava com os fatos, daí se iniciou uma transformação gradual, com as pessoas passando a exercer na sua totalidade o direito de discernir e escolher em quem vão votar fazendo com que os ditos formadores de opinião começassem a perder eleições e seguidores.

Tudo bem que nesses oito anos, Lula tenha acabado com a imoral concentração de verbas federais para publicidade, e não é fácil perder receita, mesmo que a sua manutenção até aquele momento tivesse sido feita de modo desleal. Isso justifica de forma torta o rancor que nutrem por Lula, mas nessa loucura toda por revanchismo eles acabam deixando de lado o mínimo de respeito pelos fatos e colocando cada vez mais descrédito nas suas próprias contas.

Não esperava artigos que reconhecessem todos os méritos de Lula e seu governo, mas esperava um pouco menos de cegueira. Pessoas que não conseguem enxergar um palmo à frente do nariz e ainda se acham em posição de guiar o povo brasileiro. A incapacidade de reconhecer seus próprios erros e os méritos do adversário é o que tem levado às sucessivas derrotas nas urnas. Pelo visto não aprenderam nada e não dão sinais que um dia vão chegar a aprender.
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LEN: 42 anos, Químico, Micro-empresário, libertário de esquerda sem filiação partidária, isento de preconceitos, progressista, agnóstico, democrata, respeito o contraditório."

Blogueiros sujos bebemoram em Brasília, do Blog do Miro

"Reproduzo relato de Conceição Oliveira, publicado no blog Maria Frô, que também traz inúmeras fotos da bebemoração:

'Nenhuma paciência para as pataquadas do PIG no dia de hoje, especialmente depois de ter encontrado cerca de 70 blogueiros ontem no Beirute da Asa Sul. Entre eles amigos de longa data e de jornada, outros com os quais falava quase diariamente pelo gtalk, skype, trocando posts, e-mails, sugestões, idéias, tweets sem nunca termos nos encontrado fisicamente.

Foi um dia pra lá de especial e espero que toda os blogueiros sujos que, por diferentes razões, não possam estar aqui em BSB nesta virada de ano e amanhã para nos despedirmos do Cara e darmos as boas vindas à primeira presidenta do Brasil se sintam representados.

Hoje, à meia noite, nós brindaremos à democratização da comunicação, comemoraremos a liberdade de imprensa que existe quando não perdemos o espírito crítico e nem por isso precisamos agir como cães raivosos.

Hoje, a blogosfera dos ‘sujos’, como nos cunhou o lamentável José Serra e sua campanha (esta sim, imunda), brindará à responsabilidade do jornalismo cidadão, festejaremos a promessa de o Brasil finalmente colocar em prática as resoluções da CONFECOM, da plenária do 1º Encontro dos Blogueiros Progressistas e de todo trabalho de formiguinha que nós, cidadãos anônimos, realizamos em rede para desconstruir os factóides do monopólio midiático.

Como bem apontou Rodrigo Vianna no Escrevinhador, o ano de 2010 foi de muito trabalho, mas também de muitas conquistas, e como não nos deixa esquecer Azenha, no Viomundo: 2011 será um ano de muitos desafios.

Estamos preparados para cobrar o novo governo nas políticas públicas que têm de continuar e avançar para efetivamente tornar o Brasil um país desenvolvido e sem exclusão. Que venha 2011. Feliz Ano Novo!'"

domingo, 7 de novembro de 2010

Carta aberta a Soninha Francine

Reproduzo excelente artigo do jornalista Ivan Trindade, publicado no blog "Falando sozinho":


Cara Soninha,

Não nos conhecemos. Acompanhei sua carreira pela televisão, desde os tempos de MTV.

Sempre gostei de você, da sua imagem pública, do jeito como você se meteu no futebol, sem medo de entrar em um campo quase que totalmente dos homens.

Fiquei do seu lado quando você foi crucificada pela mídia retrógrada ao assumir que fumava maconha e que já tinha feito um aborto. Solidarizei-me quando você foi demitida da TV Cultura tucana por esses mesmos “crimes”.

Mesmo longe, morando em Porto Alegre e depois no Rio, fiquei sabendo do início da sua carreira política, das suas idéias progressistas quanto ao meio ambiente, e sua luta por um trânsito mais civilizado e humano em São Paulo.

Quando você saiu do PT, achei normal, afinal a luta progressista pode ser feita em ouros espaços e ninguém é obrigado a ser petista, mas não esperava o que estava por vir.

Quando me mudei para São Paulo, em janeiro de 2008, pensei que agora poderia votar em você, mas um descuido me fez perder a data para mudar o domicílio eleitoral, mas te apoiei no primeiro turno da eleição para prefeita.

O primeiro estranhamento veio logo no segundo turno, quando vi você apoiar Gilberto Kassab. Sei que recém saída do PT seria difícil apoiar Marta, mas porque não ficar neutra?

O segundo estranhamento veio quando você aceitou ser sub-prefeita da Lapa na administração do mesmo Kassab. Fiquei pensando se o apoio não tinha sido na verdade a sua parte no trato com o Demo? Será que foi?

Mesmo assim, continuei seu fã. Continuei achando que você representava um conjunto de idéias interessantes para a discussão política no país.

Mas aí, veio 2010, e não tive mais como te apoiar.

Não lembro o dia exato em que aconteceu, mas lembro muito bem da reação que tive ao ler a notícia de que você apoiaria José Serra para presidente. E não apenas isso, faria parte da campanha.

Ok, José Serra não é o demônio e apesar de não votar nele de forma alguma, reconheço que é um nome importante na política nacional. Nada demais em apoiar José Serra, claro.

Porém, você mesmo sentiu que o apoio era difícil de digerir e foi obrigada a publicar uma justificativa no seu blog.

Mas aí veio a campanha e o José Serra que conhecíamos sumiu. No seu lugar, apareceu um beato raivoso, um mentiroso patológico e uma aproveitador baixo.

Serra jogou sua biografia no lixo e você aproveitou para jogar a sua também.

Desde o início, os panfletos apócrifos, a aliança com o que há de pior na igreja católica, nas igrejas evangélicas e na grande mídia.

O que já começou mal, só piorou, com boatos diários atacando a imagem da adversária. Se negavam autoria do jogo sujo, a campanha oficial e o próprio candidato em momento algum desautorizaram a campanha subterrânea mais suja da história da democracia brasileira. E você no centro disso tudo.

Lembra do episódio do metrô, quando sem prova alguma você insinuou uma sabotagem petista?

Teve também a propaganda em que aparecia o Zé Dirceu chamando a Dilma de “Minha companheira de armas”. Que feio tentarem criminalizar os bravos brasileiros que lutaram contra a ditadura, um deles o próprio José Serra.

Mas vocês acharam que isso daria votos. No final, conseguiram dividir o país e criar um clima de ódio como nunca antes se havia visto.

Exploraram também a questão do aborto com a própria esposa do candidato Serra chamando a adversária de “matadora de criancinhas”. Então, como milagre, os apoiadores de Serra colocaram fotos de bebês como avatar no Twitter e no Facebook. A quem serve isso? É com esse debate político que vocês queriam propor uma alternativa para o país? O que dizer então da hipocrisia quando foi revelado que a própria Mônica Serra havia feito um aborto?

É claro que houve erros do lado da campanha da Dilma e dos seus apoiadores, inclusive dos “blogs sujos”, assim apelidados pelo Serra. Não serve a ninguém chamar Serra de vampiro (o que eu fiz também e peço desculpas), de fujão e de qualquer outra coisa, mas você há de convir que há uma grande diferença entre usar apelidos maldosos e distribuir milhões de panfletos chamando Dilma de terrorista assassina. Muitos desses panfletos produzidos em uma gráfica de propriedade da esposa de um tucano envolvido na campanha.

Outro bom fator de comparação entre as duas campanhas foi o programa de TV. No de Serra, ataques, disseminação de preconceitos e tentativa de desclassificação da Dilma, além de propostas vazias e eleitoreiras. No programa de Dilma, prestação de contas dos feitos do governo Lula e compromissos concretos baseados na experiência de quem governa o país com sucesso há oito anos, com 83% de aprovação. Até acho que você pode não ter tido nada a ver com os programas de TV, mas concordou com a exploração do tema do aborto, por exemplo.

Já no primeiro turno, ficou claro que o povo não aprovava tal estratégia e se não fosse o fator Marina, vocês já teriam sido derrotados. A campanha do Serra, porém, não fez essa leitura e resolveu insistir no debate político mais baixo possível.

Não só mantiveram, como aprofundaram a tentativa de enganar a população. Com a ajuda da Rede Globo, forjaram um ataque ao candidato por petistas raivosos em Campo Grande. Uma bolinha de papel virou um objeto de dois quilos, mas que milagrosamente não deixou nenhuma marca ao atingir em cheio a cabeça do candidato. Logo o ridículo foi exposto e Serra virou hit no Twitter. Nesse dia fui ver o que você estava escrevendo no microblog e descobri que o humor tinha sumido da sua vida. Você bradava que o PT sempre fazia isso. Tinha comprado a tese do ataque fajuto.

Veio a eleição e o povo deu o seu recado. Mais 4 anos para o projeto que vem transformando o Brasil desde 2003. Terceira derrota seguida para o partido que quase jogou o Brasil na bancarrota, mesmo vendendo várias partes do patrimônio nacional. E principalmente derrota para o candidato que escolheu o ódio, a divisão, a mentira, a raiva.

Na segunda-feira, dia 1o de novembro, assisti a um vídeo na internet. Era um debate entre você e o prefeito petista de Osasco (obrigado pelas correções). Tenho que te dizer que me assustei. A Soninha que eu estava acostumado a ver na ESPN BR e antes disso na MTV, sempre leve e com um cacoete de rir enquanto falava havia sumido. No lugar, vi uma mulher raivosa, exasperada, desesperada mesmo com a derrota acachapante que havia sofrido (digamos que 12 milhões de votos de diferença é uma derrota acachapante). Vi uma mulher tentando transferir para os adversários tudo aquilo que ela mesma fez durante a campanha. Todas as mentiras, as agressões e as estratégias subterrâneas que mancharam a democracia brasileira.

Hoje me pergunto se vou voltar a ver a Soninha que estava acostumado a ver na TV ou se aquela jornalista séria e progressista deu lugar definitivamente a uma agente política raivosa que usa o que há de pior no mundo da comunicação para tentar eleger seu candidato? Fica a pergunta.

Abraços, Ivan Trindade

terça-feira, 2 de novembro de 2010

É isso aí

Ana Carolina e Seu Jorge




É isso aí!
Como a gente achou que ia ser
A vida tão simples é boa
Quase sempre
É isso aí!
Os passos vão pelas ruas
Ninguém reparou na lua
A vida sempre continua

Eu não sei parar de te olhar
Eu não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não sei parar
De te olhar

É isso aí!
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade

É isso aí!
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores

Eu não sei parar de te olhar
Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar

É isso aí!
Há quem acredite em milagres
Há quem cometa maldades
Há quem não saiba dizer a verdade

É isso aí!
Um vendedor de flores
Ensinar seus filhos a escolher seus amores

Eu não sei parar de te olhar
Eu Não sei parar de te olhar
Não vou parar de te olhar
Eu não me canso de olhar
Não vou parar de te olhar

Pausa pra tripudiar

Por Guilherme Scalzilli

"Essa é minha humilde mensagem para Guilherme Fiuza, Eliane Cantanhêde, Merval Pereira, Arnaldo Jabor, Soninha Francine, Augusto Nunes, Diogo Mainardi, Lauro Jardim, Reinaldo Azevedo, Ricardo Noblat, Lucia Hippolito, Otávio Frias Filho, Fernando Rodrigues, Elio Gaspari, Ferreira Gullar, Barbara Gancia, Josias de Souza, Clóvis Rossi, João Pereira Coutinho, Kennedy Alencar, Fernando de Barros e Silva, Danuza Leão, Ali Kamel, Carlos Alberto Sardenberg, Maitê Proença, Márcia Tiburi, Betty Lago, Cristiana Lobo, Ethevaldo Siqueira, Ana Paula Sousa, Janaína Leite, Olavo de Carvalho, Demetrio Magnoli, Marco Antonio Villa, Boris Fausto, Mário Sabino, Claudio Humberto, Villas-Bôas Corrêa, Marcelo Madureira, Tereza Cruvinel, Roberto Civita e todos os seus asseclas e admiradores. Mas não se preocupem: daqui a pouco voltaremos ao debate civilizado e construtivo que vocês não souberam promover. Vê-los imersos na vergonha e na desmoralização já valeu por milhões de gargalhadas. Rá."

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Lembrando dos tempos da última ditadura - Lembrar é preciso

Tem certas coisas que não se pode deixar cair no esquecimento ou na ignorância dos mais jovens. Invariavelmente os mesmos esquecimento e ignorância são utilizados para manipular os esquecidos e ignorantes. Ontem o Brasil elegeu uma valorosíssima sobrevivente desses chamados anos de chumbo. Ontem, senti-me orgulhoso de ser brasileiro. Mais uma vez.





quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Minha Namorada-Vinícius e Miúcha

No meio de tanta política ditada por uma campanha eleitoral acirrada, um pouco de poesia não faz mal a ninguém. De amor então, menos ainda. Então... Vinícius, claro (e Carlos Lyra). Letra e música. Voz de Vinícius e Miúcha.




Meu poeta eu hoje estou contente
Todo mundo de repente ficou lindo
Ficou lindo de morrer
Eu hoje estou me rindo
Nem eu mesma sei de que
Porque eu recebi
Uma cartinhazinha de você

Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ter
Você tem que me fazer
Um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porque

E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho
E talvez o meu caminho
Seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A bolinha

Manhã fria de outono. Capital dos EUA. Aos poucos, os representantes das principais polícias do mundo ingressavam, carrancudos e preocupados, no antigo mas ainda conservado e imponente Edifício J. Edgard Hoover. Logo que cheguei na antessala do diretor senti o cheiro do café fresco misturado à atmosfera densa. Aqui e ali identificava um outro, de suor ou de naftalina, proveniente, certamente, de algum chefe de polícia estrangeiro, quem sabe francês — que sua fama não deve advir de mera fofoca.

O fumo era excepcionalmente ali permitido. A gravidade da situação tornou irrelevante a questão dos malefícios do cigarro ao ser humano, incluídos nós, os policiais, claro, que seres humanos também o somos. Perguntei em meu inglês sofrível à mocinha que o servia a origem da bebida — tão agradável ao olfato e, depois constatei (aí já emocionado), também ao paladar. Do Brasil, respondeu-me. Puxa, por alguns segundos esqueci-me da difícil missão que me fora confiada por meu país e recordei-me das aves que lá gorjeavam — que não gorjeiam como as daqui —, das nossas verdes matas, cachoeiras e cascatas de colorido sutil, e daquele lindo céu azul de anil...

Subitamente fui trazido à realidade pelo empurrão do chefe de polícia alemão — a delicadeza não é mera coincidência —, que me lembrava já iria iniciar-se o encontro onde talvez o destino do mundo que hoje conhecemos seria decidido. Não entendi nada do que me disse, mas pela, digamos, ênfase do seu convite preferi acompanhá-lo.

Nem bem adentrei, os olhares a mim se voltaram. Tão ansiosos quanto preocupados. A razão: afinal, que poder letal poderia ter aquela nova arma? Como pode um objeto até então inofensivo ser capaz de provocar dano em alguém? Por que a vítima só veio a sentir a terrível dor cerca de quinze minutos depois, após uma ligação de celular? Esperavam de mim uma resposta... Infelizmente, porém, não a tinha. De certo, apenas, que um dos dois candidatos a presidente do Brasil fora atingido na careca por uma bolinha de papel, e surpreendentemente, metade de hora depois, sentira forte dor, por alguma desconhecida combinação entre o impacto provocado pela inocente bolinha e ondas radiativas provenientes do seu aparelho celular.

O mundo não estava preparado para a simplicidade da novel arma. Fosse a vítima da bolinha um Zé Ninguém, talvez houvesse morrido e nada saberíamos. Mas como foi o Zé Serra, temos uma chance de descobrir e salvar a humanidade. Pra isso estou aqui. Em Washington, D. C..
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"Bolinhagate"

"Eis que o bolinhagate, que fez de Serra motivo de chacota até na imprensa argentina, é agora concluído com a publicação, ao melhor estilo Folha de São Paulo, da ficha policial falsa da bolinha de papel:

sábado, 23 de outubro de 2010

Eca! (ou Uma nova versão do Cansei!)

Eca, aqui, não é o Estatuto da Criança e do Adolescente, como é conhecido aquele diploma legal. Eca!, aqui, traduz aquela expressão de nojo que a gente diz, entronchando a boca, e com a barriga revirando de enjoo. Tenho dito muitas ecas!, entronchado muito a boca, e sentido muita náusea desde que iniciada a campanha eleitoral para presidente do Brasil.

Primeiro, por causa da campanha realizada pelo candidato Serra. O ódio, a baixeza, as calúnias e difamações, as piadas agressivas e preconceituosas, o cinismo, a hipocrisia, as mentiras deslavadas são absolutamente repugnantes. Vão desde a distribuição de panfletos apócrifos contendo as mais sórdidas mentiras, passando pela veiculação de e-mails desrespeitosos, recheados de intolerância, ódio, preconceito e, claro, mentiras, até a própria campanha na tv, com o candidato e seu “angelical” discurso. Eles conseguiram extrair esses sentimentos e práticas das entranhas de parcela da população brasileira.

Segundo, devido à escancarada parcialidade da grande e velha mídia nacional, capitaneada pela Rede Globo de Televisão, pela revista Veja e pelos jornalões Folha de São Paulo e Estado de São Paulo. Aliás, a bem da verdade, este último pelo menos assumiu, ainda que um tanto tardiamente, que apóia a candidatura do Serra, o que não deixa de ser digno.

Em face disto, como cidadão resolvi adotar medidas simples e ao meu dispor. Meu pai é cardíaco e já de certa idade, de sorte que as sucessivas Ecas! a que é levado a dizer, entronchando a boca e sentindo fortes náuseas levou-me, e à minha família, a adotar as providências necessárias a cancelarmos, sem titubear e com urgência, a assinatura daquela revista. Também decidimos abolir da nossa casa o (pseudo) jornalismo da Globo.

Cansei! Ou, simplesmente, eca!
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Campeão também no combate à corrupção

O Serra, e grande parte de seus eleitores, adoram dizer-se donos da ética, inclusive para nos apontar o dedo (limpo) e questionar-nos a nossa predileção política pela candidatura Dilma (além da própria, claro, e do Presidente, e de seu governo como um todo) sob esse prisma (translúcido, de tão asséptico).

Nada tão pretensioso quanto vazio. Para dizer o mínimo.

O Governo Lula, além de todos os indicadores econômicos e sociais campeões — os quais vou me abster de enumerar aqui, por sobejamente conhecidos —, foi o governo campeão também em atuação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Campeão! A Polícia Federal nunca agiu tanto. De 2004 a 2009 foram cerca de 1.000 operações e quase 13.000 prisões realizadas em articulação com a Controladoria Geral da União. Sabe quantas operações especiais foram realizadas pela mesma polícia no governo anterior? Não chegaram a 25! Cansou-se de ver não apenas bagres, mas principalmente tubarões sofrendo o peso da força policial.

O Procurador-Geral da República deixou de ser um cargo conhecido pela vergonhosa alcunha de Engavetador-Geral da República (referência à sucessão de processos que dormiam e dormiram para sempre nas gavetas daquele órgão). Só o Ministério Público instaurou quase 2.500 procedimentos judiciais em decorrência das fiscalizações da CGU. A lei se fez valer para todos, a favor ou contra o governo, de fora ou em suas entranhas.

Para o combate à corrupção diversos órgãos foram criados, através da CGU: Sistema de Correição da Administração Federal, articulação CGU e Polícia Federal, Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas, Programa de Fiscalização por Sorteios, Conselho de Transparência Pública e Combate à Corrupção, além do Portal da Transparência, considerado modelo no mundo.

Esses dados, entretanto, aqui perfilados em síntese apertada, não são conhecidos pela população, tampouco encontram na grande mídia a ressonância que deveria ser consequência lógica.

O interessante, por outro lado, é que as mesmas vozes que se pretendem proprietárias do discurso ético não se levantam, nem se levantaram, quando estouraram os escândalos do governo anterior, como os dos precatórios, do DNER, do BANESTADO, dos Bancos Marka e Fonte-Cidam, da REELEIÇÃO, das privatizações, do PROER, dos Anões do Orçamento, da pasta Rosa, entre outros. E muitas inocentemente não sabem que os escândalos dos Sanguessugas, Gabiru, Confraria, Navalha, Valerioduto, entre outros, embora revelados durante o governo Lula, foram originados em governos que lhe antecederam. Aliás, até o mensalão teve o PSDB como pai.

A corrupção, portanto, não é privativa do governo Lula, tampouco fora nele amplificada. Ao contrário, “nunca na história deste país”, para manter o tão repetido quanto verdadeiro bordão, um governo a enfrentou tão articulada e corajosamente quanto este.
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

CENTRAL DE BOATOS

Direto do blog Seja Dita Verdade

 CENTRAL DE BOATOS

"Para ajudar a campanha oficial, uma compilação dos emails falsos que circulam sobre Dilma Rousseff e seus respectivos desmentidos. Cada link remete ao leitor ao texto em questão. Espalhem, é importante". Tá lá no Seja Dita Verdade

sábado, 2 de outubro de 2010

Entre os ignorantes, por favor!

Eleição presidencial de 2006. Artigo em jornal, prenhe de arroubos morais e éticos, no melhor estilo “lacerdiano”, vaticinava, mais ou menos assim: quem teve educação, ou tem ética, como o raivoso articulista então proclamava, não vota em Lula.

Vixe! Deu um nó na minha cabeça. Num vou mentir... A ser verdade, eu, que sempre votei no nordestino-torneiro-mecânico-sapo-barbudo, e então votaria de novo, via-me numa autêntica sinuca de bico pessoal: ou eu seria um peste dum ignorante (sem educação doméstica e escolar) ou um desgraçado sem ética. Ou burro, ou cabra de peia.

Pôxa, como não me achava nem uma coisa nem outra fiquei atordoado, claro. Mais ainda porque não vi tanta ira à época do governo anterior, quando pipocaram (pouquinho, é bem verdade, porque a mídia grande não era muito chegada a divulgar essas coisas, mas algum milho conseguiu virar pipoca, sim) os escândalos do SIVAM, do PROER, da emenda da reeleição, das privatizações financiadas pelo próprio BNDES, e por aí vai.

Aí o tempo passou. O Lula foi reeleito pra mais um mandato, a dívida com o FMI foi paga (e dele o país hoje é credor), a maior crise mundial da história, desde 1929, foi pouco sentida pelo Brasil graças às providências do governo federal (uma marolinha para o país, segundo já avisava o presidente, porém ridicularizado por muitos), o Brasil deverá deixar de ter miseráveis até 2016 (segundo o IPEA), a renda sobe, a taxa de desemprego cai, e por aí também vai.

Ao lado disto, a popularidade do homem só cresceu. Hoje 79% consideram seu governo bom/ótimo, 17%, regular, e apenas 4% ruim/péssimo. O anterior alcançou o máximo de 47% de aprovação. Sua candidata a presidente para as próximas eleições, Dilma Rousseff, tem, hoje, dia em que se comemora a independência do Brasil, segundo o VoxPopuli/Band/IG, a marca de 56% das intenções de voto, enquanto o seu rival mais próximo, o tucano José Serra, tem 21%.

Mesmo assim, num vou dizer pra você que não me sinta mal ainda hoje. Afinal, mesmo sendo um governo que tem feito uma verdadeira revolução social e econômica neste país — hoje, por exemplo, o Brasil é o terceiro destino preferido para investir pelas multinacionais (atrás, apenas, da China e da Índia) —, mesmo sendo o presidente mais popular da história deste país, mesmo sendo o presidente brasileiro que mais recebeu prêmios nacionais e internacionais, a circunstância de ser ignorante ou sem-ética por apoiá-lo é no mínimo desagradável. Então, por favor, rogo a quem, como o tal articulista, pensar possa: ponham-me entre os ignorantes, ao menos.
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*Enviado à publicação no jornal Gazeta de Alagoas

sábado, 25 de setembro de 2010

A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma


Por Leonardo Boff

Sou profundamente pela liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso” pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais”, onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de ideias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando veem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos de O Estado de São Paulo, de A Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja, na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e chulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem desse povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido a mais alta autoridade do país, ao Presidente Lula. Nele veem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma), “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e não contemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes, nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo -Jeca Tatu-; negou seus direitos; arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação; conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles têm pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidente de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados, de onde vem Lula, e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e para “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palabra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito inovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas, importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, ao fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA, que faz questão de não ver; protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra, mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e, no fundo, retrógrado e velhista; ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes?

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das más vontades deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.
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Fonte: Adital



quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Entrevista de Hildegard Angel a Cynara Menezes, em Carta Capital

"Enquanto seu irmão Stuart era preso e morto pela ditadura, em 1971, a jovem Hildegard Angel iniciava trajetória oposta, atuando no colunismo social do jornal O Globo, onde trabalharia, entre idas e vindas, por quase 40 anos. Em 1976, quando a mãe dos dois, a estilista Zuzu, foi assassinada pelo regime em um acidente de carro, Hildegard já era uma jornalista conhecida e atriz de TV. Não deixa de ser interessante que, aos 60, recém-saída do extinto Jornal do Brasil (agora só online), Hilde assuma uma postura de franco-atiradora.

Suas armas são um blog e o Twitter. Seus alvos: a mídia e a preferência pelo candidato José Serra, do PSDB _no mês passado, ela declarou voto em Dilma Rousseff, do PT. Na entrevista concedida a CartaCapital em sua cobertura de frente para o mar em Copacabana, Hildegard Angel, criadora do termo 'emergente' para definir os novos ricos cariocas, diz que Lula sofre preconceito por ser um deles, na política. 'Já o Serra é o valoroso self-made man', ironiza."


CartaCapital – Por que a sra. decidiu apoiar Dilma Rousseff?
Hildegard Angel - Ela estava sendo tão massacrada que achei ser o momento de me posicionar. Era um bombardeio de e-mails, de sobrenomes coroadíssimos, atacando a Dilma. Começaram denegrindo pelo físico, que ela era feia, horrorosa, megera, medonha. Aí ela ficou bonita e não puderam mais falar. Então começaram a atacar a parte moral, que ela é assassina, terrorista, ladra. Isso é um reflexo da impunidade. Enquanto não colocarmos nos devidos lugares os que foram responsáveis pelas atrocidades da ditadura eles vão se sentir no direito de forjar uma realidade inexistente, de denegrir nossos mártires, nossos heróis.

CC – Antes desta eleição, a senhora já tinha se posicionado politicamente?
HA – Não. Em nível nacional é a primeira vez. E acho que meu depoimento, e o almoço que a Lily Marinho (viúva de roberto Marinho) promoveu, romperam o círculo demonizante erguido em torno da Dilma. Ali fez-se uma fissura. A classe alta pensante, os ricos mais liberais, se permitiram uma abertura.

CC – D. Lily Marinho apoia Dilma?
HA – A Lily passou a apoiar a Dilma depois que a conheceu. Quando ela fez o almoço para a Dilma, estava agindo como a mulher do Roberto Marinho, que está acima do bem e do mal e que pode se dar ao luxo de receber quem bem entende. Mas a Dilma conquistou a Lily. Antes do almoço, podia até haver a idéia de receber também os outros candidatos. Depois, não havia mais.

CC – Houve reação dos filhos de Roberto Marinho pela madrasta ter recebido a candidata do PT?
HA - A Lily tem uma relação tão harmoniosa, tão respeitosa com eles, que acho que jamais teriam qualquer tipo de reação. O jornal e toda a organização têm sido muito duros com a Dilma, mas a única matéria positiva sobre ela até hoje em O Globo, da primeira até a última palavra, foi a do almoço com a Lily.

CC – Há quatro anos o ex-prefeito de São Paulo Claudio Lembo fez uma crítica, surpreendente para alguém do DEM, contra a elite branca. A sra. acha que falava só da paulistana ou da carioca também?
HA – Da elite brasileira como um todo. É uma elite preconceituosa, que tem seus valores, seus princípios, e acha muito difícil abrir mão de suas convicções.

CC – Que tipo de rico tem preconceito com Lula?
HA - O rico do passado, da herança, do aluguel, muito apegado a tradições, a sobrenome. É uma elite na maioria não produtiva, porque a elite produtiva, o homem que emprega, que gera progresso, desenvolvimento, não deixa de aplaudir o Lula. Mas às vezes a mulher deste homem não aplaude… Diplomatas aposentados também têm preconceito com Lula. O Itamaraty sempre foi o filé mignon do serviço público brasileiro, pela cultura, pela erudição, pelo savoir faire. E a política externa atual vai na contramão disso tudo. Esse é um segmento social que rejeita o Lula, o dos punhos de renda.

CC – Nos círculos que frequenta, ainda há gente que faz piada com a origem humilde de Lula?
HA - O vaivém dos e-mails de gente da classe A contra o Lula é de uma variedade enorme…. Por exemplo: as festas caipiras do Lula incomodaram muito. Já a Zuzu Angel sempre viu uma beleza extraordinária na caipirice, tanto que foi a primeira a usar as rendas do Norte, a misturar com organza, a usar as chitas, hoje tão na moda. Minha mãe tinha uma frase: a moda brasileira só será internacional se for legítima. Por isso foi a primeira a ter penetração no exterior. De certa forma, o Lula, com as festas caipiras dele, fez o que a Zuzu fez em 1960 com a moda caipira dela.

CC – Serra também tem origem humilde. Por que não existe este preconceito com ele?
HA - Porque o perfil do Lula se adequa mais ao do emergente. O do Serra é o do valoroso self made man… O Serra, para ser o homem que é, teve de dominar os códigos da elite, pelo estudo, pela convivência com pessoas intelectualmente superiores. Já o Lula foi abrindo caminho na base da cotovelada. E, de certa maneira, se manteve fiel à sua raça. Não se transformou com a ascensão, não se desligou, guardou seu ranço de pobreza, a memória do sofrimento. Isso o tornou mais sensível.

CC – E por outro lado o faz ser malvisto?
HA - Sim, porque nunca será um igual e nem faz questão. A dona Marisa Letícia nunca abriu seus salões. Durante o governo FHC, fui inúmeras vezes convidada para recepções no Itamaraty e, em governos anteriores, até no Palácio da Alvorada. No governo Lula só fui convidada uma vez, para o Itamaraty. Black-tie nunca existiu. Isso cria uma limitação de trânsito social. Não há uma interação para esta sociedade se inserir dentro de uma linguagem que não seja de gabinete junto à família Lula. Talvez ele não se sentisse confortável fazendo isso, não é sua praia.

CC – Ainda tem muito preconceito de classe no Brasil?
HA - Cada vez menos, mas tem. O que Lula sofre é preconceito de classe, mas está sendo superado por ele mesmo. Essa possível vitória da Dilma mostra que não é só o povão, não é são só aqueles que melhoraram de situação. Tem muito rico pensando diferente, saindo do casulo, desse gueto de pensamento.

CC – O interessante é que o dinheiro também tem de ser bem-nascido. De padaria, de marmita, não é dinheiro “bom”.
HA - O dinheiro do comércio sempre foi visto no Brasil como um dinheiro sem base cultural, de origem ruim. Já o dinheiro da indústria, da área financeira, era “digno”. Agora, com a falta generalizada de dinheiro no meio dos que eram muito ricos, essas pessoas deste dinheiro de origem menos nobre conseguiram uma posição de respeitabilidade no ambiente social.

CC – Os emergentes são mais respeitados?
HA – São mais aceitos, embora o verdadeiro emergente não esteja mais preocupado com isso. O verdadeiro emergente não tem aquelas veleidades do nouveau riche de antigamente. O nouveau riche de ontem queria entrar para o soçaite, que seus filhos estudassem com os filhos do soçaite, tinham aquela visão encantada da alta sociedade. O emergente de hoje tem mais noção do seu poder, não é tão submisso. Com o empobrecimento do rico tradicional, o rico do dinheiro novo se achou numa posição de não precisar fazer tanto a corte a essas pessoas.

CC – O dinheiro de Eike Batista, por exemplo, é “nobre”?
HA – Culturalmente falando, sim. Ele é filho de Eliezer Batista, que tinha grande status no país há muitas décadas. O que acontece é que o Eike sabe muito bem o que quer. Gosta de esporte, de mulher bonita, dos filhos e do trabalho dele. Sua vida é um retrato disso. Tem um carro espetacular de corrida na sala, tem casa decorada com troféus das suas lanchas. Ele poderia ter um Picasso, mas não é aquele rico tradicional. Nós temos no país essa classe da riqueza envergonhada, que não tem muito como explicar o seu dinheiro, da riqueza escondida, que não pode ser fotografada… E o Eike, como tudo dele, acredito, seja declarado lá no imposto, pode expor seu dinheiro. Ele é o rico da riqueza assumida.

CC – O jornalista Mauricio Stycer estudou a coluna de César Giobbi no Estadão em 2002, quando Lula se candidatou pela primeira vez, e concluiu que o colunista fez campanha disfarçada para Serra. Isso é comum?
HA - Ah, a Miriam Leitão também faz… É comum o colunista ter afinidade com o veículo e ter uma linha de raciocínio que vai de encontro à dele e ao meio em que convive. O Giobbi é uma pessoa estimadíssima na alta sociedade paulistana, não é visto nem como jornalista, é visto como um da turma. A Monica Bergamo (da Folha) não é vista como uma da turma. O Giobbi é um do time, então raciocina de acordo com seu time.

CC – O colunista social no Brasil sempre é de direita?
HA - Não, os colunistas têm a posição dos seus jornais. Tenho o privilégio que nem a posição do meu jornal eu tinha. O JB se manteve fazendo um jornalismo bem tucano até seis meses atrás, mas eu mantive minha independência e o jornal me deu essa liberdade, o que não é comum.

CC – Dos colunistas sociais clássicos, como Ibrahim Sued, tinha algum que era mais de esquerda?
HA - O Zózimo (Barrozo do Amaral) era visto à esquerda, mas era muito discreto, eu nunca o vi se posicionar ostensivamente na contramão do seu grupo social. Isso não existe. Havia na época uma coisa charmosa, atraente, um esquerdismo light, fazia parte do put together da elegância.

CC – A sra. teve uma trajetória bem diferente do seu irmão Stuart. Era a burguesa da família?
HA – Não, era a caçula. A sobrevivente. Eu era atriz de teatro e passei a ter uma atividade paralela, o jornalismo, que acabou se sobrepondo à atividade artística. Até porque quando entramos no processo das comédias ligeiras em decorrência da censura, não vi mais graça. Não sei se houve algum componente psicológico nisso, mas um mês depois da morte de minha mãe, não renovei mais o contrato. Estava em cartaz com uma comédia de grande sucesso, “Bonifácio Bilhões”, com Lima Duarte e Armando Bogus. Não me aproximei mais do teatro, já estava com minha carreira encaminhada para o jornalismo. De repente me vi sem mãe, sem irmão, sem irmã (enviada para a França), meu pai morando no interior com outra família. Eu era a Angel que ficou para sobreviver, na atividade que sabia fazer, o jornalismo social, mas isso me custou o preço de eu ter de me calar e nem sequer refletir. Quando se vive num processo de muito medo você não reflete, só sobrevive. Eu consegui sobreviver tão bem que hoje eu falo. E vejo pessoas que deveriam estar falando, caladas.

CC – Outro dia a sra. falou no twitter que acha que a filha de Serra, Verônica, deveria abrir o sigilo fiscal para acabar com as dúvidas.
HA – Não só a filha do Serra, todo homem público no país e seus parentes próximos deveriam tomar a iniciativa de abrir seu imposto de renda, sua evolução patrimonial. Deveria ser lei, uma obrigação ética, moral. Causa estranheza a gente ver figuras políticas carimbadas de um dia para outro mudarem de casa, de bairro, de status, de carro, de avião, sem ter uma história profissional que justifique isso. Devia partir deles, desses homens que se dizem honrados, fazer esse gesto. Por isso acho esse escândalo pífio.

CC – A sra. também criticou na rede a passeata dos humoristas contra a “censura”. Por quê?
HA – A passeata deles não era a favor do humor, era a favor do Serra, não era contra a censura, era contra o governo. Foi uma passeata que teve um defeito de origem: não esclarecer o real motivo do humor não estar liberado, que era um projeto dos deputados, não do governo ou do TSE. Ou seja, foi uma passeata ignorante que disseminava a ignorância. Quem faz humor político não pode ser ignorante, porque é o humor mais sofisticado que há. Além disso, vi no CQC eles fazendo humor de uma maneira muito grosseira com dona Marisa Letícia, dizendo que o Eike Batista tinha faturado ela e ia comprar uma coleira… Isso se diz da mulher do presidente da República? É comparável à ofensa que o Irã fez em relação a Carla Bruni.

CC – Manifestar-se politicamente agora a recoloca mais no caminho do Stuart e da Zuzu?
HA – Me sinto um pouco refém da coragem da minha família, é como se tivesse retomado meu curso. Como se cumprisse uma trajetória que estava ali me esperando, neste momento que as pessoas se acomodaram, que estão submetidas a seus empregos, todas colocadas na grande imprensa, com uma posição monocórdia, um pensamento único. Vou estar sendo dura e talvez injusta, mas é muito fácil ser herói quando isso lhe dá ibope. Difícil é ir contra a corrente quando isso vai pegar mal para você. Sou uma colunista social e meu patrimônio são as elites. Meu leitorado principal são as elites. Me surpreende e me enternece que elas me respeitem agora mais do que nunca.

CC – Pretende se tornar uma guerrilheira online?
HA – Eu seria muito pretensiosa e desrespeitosa se de alguma maneira usasse essa qualificação de guerrilheira. Guerrilheiro foi meu irmão. Eu não fui. Estou tirando o atraso, só isso.

sábado, 4 de setembro de 2010

Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT


Por Leonardo Boff

Para mim o significado maior desta eleição é consolidar a ruptura que Lula e o PT instauraram na história política brasileira. Derrotaram as elites econômico-financeiras e seu braço ideológico a grande imprensa comercial. Notoriamente, elas sempre mantiveram o povo à margem da cidadania, feito, na dura linguagem de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu,”capado e recapado, sangrado e ressangrado”. Elas estiveram montadas no poder por quase 500 anos. Organizaram o Estado de tal forma que seus privilégios ficassem sempre salvaguradados. Por isso, segundo dados do Banco Mundial, são aquelas que, proporcionalmente, mais acumulam no mundo e se contam, política e socialmente, entre as mais atrasadas e insensíveis. São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam 46% de toda a riqueza nacional, sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os paises mais desiguais do mundo, o que equivale dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta.

Até a vitória de um filho da pobreza, Lula, a casa grande e a senzala constituíam os gonzos que sustentavam o mundo social das elites. A casa grande não permitia que a senzala descobrisse que a riqueza das elites fôra construida com seu trabalho superexplorado, com seu sangue e suas vidas, feitas carvão no processo produtivo. Com alianças espertas, embaralhavam diferentemente as cartas para manter sempre o mesmo jogo e, gozadores, repetiam:”façamos nós a revolução antes que o povo a faça”. E a revolução consistia em mudar um pouco para ficar tudo como antes. Destarte, abortavam a emergência de um outro sujeito histórico de poder, capaz de ocupar a cena e inaugurar um tempo moderno e menos excludente. Entretanto, contra sua vontade, irromperam redes de movimentos sociais de resistência e de autonomia. Esse poder social se canalizou em poder político até conquistar o poder de Estado.

Escândalo dos escândalos para as mentes súcubas e alinhadas aos poderes mundiais: um operário, sobrevivente da grande tribulação, representante da cultura popular, um não educado academicamente na escola dos faraós, chegar ao poder central e devolver ao povo o sentimento de dignidade, de força histórica e de ser sujeito de uma democracia republicana, onde “a coisa pública”, o social, a vida lascada do povo ganhasse centralidade. Na linha de Gandhi, Lula anunciou: “não vim para administrar, vim para cuidar; empresa eu administro, um povo vivo e sofrido eu cuido”. Linguagem inaudita e instauradora de um novo tempo na política brasileira. A “Fome Zero”, depois a “Bolsa Família”, o “Crédito consignado”, o “Luz para todos”, a “Minha Casa, minha Vida, a “Agricultura familiar, o “Prouni”, as “Escolas profissionais”, entre outras iniciativas sociais permitiram que a sociedade dos lascados conhecesse o que nunca as elites econômico-financeiras lhes permitiram: um salto de qualidade. Milhões passaram da miséria sofrida à pobreza digna e laboriosa e da pobreza para a classe média. Toda sociedade se mobilizou para melhor.

Mas essa derrota inflingida às elites excludentes e anti-povo, deve ser consolidada nesta eleição por uma vitória convincente para que se configure um “não retorno definitivo” e elas percam a vergonha de se sentirem povo brasileiro assim como é e não como gostariam que fosse. Terminou o longo amanhecer.

Houve três olhares sobre o Brasil. Primeiro, foi visto a partir da praia: os índios assistindo a invasão de suas terras. Segundo, foi visto a partir das caravelas: os portugueses “descobrindo/encobrindo” o Brasil. O terceiro, o Brasil ousou ver-se a si mesmo e aí começou a invenção de uma república mestiça étnica e culturalmente que hoje somos. O Brasil enfrentou ainda quatro duras invasões: a colonização que dizimou os indígenas e introduziu a escravidão; a vinda dos povos novos, os emigrantes europeus que substituirem índios e escravos; a industrialização conservadora de substituição dos anos 30 do século passado mas que criou um vigoroso mercado interno e, por fim, a globalização econômico-financeira, inserindo-nos como sócios menores.

Face a esta história tortuosa, o Brasil se mostrou resiliente, quer dizer, enfrentou estas visões e intromissões, conseguindo dar a volta por cima e aprender de suas desgraças. Agora está colhendo os frutos.

Urge derrotar aquelas forças reacionárias que se escondem atrás do candidato da oposição. Não julgo a pessoa, coisa de Deus, mas o que representa como ator social. Ceslo Furtado, nosso melhor pensador em economia, morreu deixando uma advertência, título de seu livro A construção interrompida(1993):”Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta no devir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromer o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35). Estas não podem prevalecer. Temos condições de completar a construção do Brasil, derrotando-as com Lula e as forças que realizarão o sonho de Celso Furtado e o nosso.
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*Leonardo Boff, autor de Depois de 500 anos: que Brasil queremos, Vozes (2000).

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O governo LULA, por Ariano Suassuna


"O maior avanço político no Brasil ocorreu nos oito anos do governo Lula.

Você não sabe a humulhação que eu sentia pela dívida do Brasil ao FMI. Olha, o presidente brasileiro não tinha condições de escolher um ministro que não fosse aprovado pelo FMI. O FMI tinha o direito de vetar. Agora, o Brasil pagou a dívida e o FMI está devendo à gente. E Lula disse: 'Já pensou que coisa chique, o FMI está devendo ao Brasil.' Foi para o povo brasileiro recuperar a autoestima.

Lula baixou o número de pessoas que viviam na miséria. Ele baixou de 34% para 18%. Ele, Lula. E o percentual deve estar mais baixo ainda porque esses dados são do ano passado.

Eu morria de vergonha do governo Fernando Henrique. Bastava dar um chapéu de doutor para ele entregar tudo.

Eu votei no Lula em todas as vezes e não me arrependo. Escrevi, falei em comício, fiz o diabo. O que eu posso fazer eu faço. Eu não tenho poder político, nem econômico, nem nenhum outro, mas tenho uma língua afiada que só a peste, e ela está a serviço do meu país."
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Ariano Suassuna, em entrevista ao repórter Fernando Coelho, publicada no jornal Gazeta de Alagoas, edição impressa de 29/08/2010 (domingo), em resposta à pergunta abaixo:

"Recentemente o senhor esteve com o presidente Lula e a candidata à Presidência Dilma Rousseff num evento de campanha em Garanhuns, terra natal de Lula, aliás. Como o senhor avalia seus oito anos de governo?

Foto: Ricardo Lêdo, em Gazeta de Alagoas

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O que é um tucano?

Por Emir Sader, em www.cartamaior.com.br
Avis rara, animal político com grave risco de extinção, o tucano se diferencia dos outros animais. Identifiquemos suas características, antes que seja tarde demais:
O tucano tem certeza que tem razão em tudo o que diz e faz.

O tucano lê a Folha de São Paulo cedinho e acredita em tudo o que lê.

O tucano nunca foi à América Latina, considera o continente uma área pré-capitalista e, portanto, pré-civilizatória.

O tucano considera a Bolívia uma espécie de aldeia de xavantes e a Venezuela uma Albânia.

O tucano nunca foi a Cuba, mas achou horrível.

O tucano foi a Buenos Aires (fazer compras com a patroa), mas considera a Argentina uma província européia.

O tucano considera FHC merecedor de Prêmios Nobel – da Paz, de Literatura, de física, de química, quaisquer.

O tucano considera o povo muito ingrato, ao não reconhecer o bem que os tucanos – com FHC à cabeça - fizeram e fazem pelo país.

A cada derrota acachapante, o tucano volta à carga da mesma maneira: ele tinha razão, o povo é que não o entendeu.

O tucano acha o povo malcheiroso.

O tucano considera que São Paulo (em particular os Jardins paulistanos) o auge da civilização, de onde deve se estender para as mais remotas regiões do país, para que o Brasil possa um dia ser considerado livre da barbárie.

O tucano mora nos Jardins ou ambiciona um dia morar lá.

O tucano é branco ou se considera branco.

O tucano compra Veja, mas não lê. (Ele já leu a Folha).

O tucano tem esperança de retomar o movimento Cansei!

O tucano tem saudades de 1932.

O tucano venera Washington Luis e odeia Getúlio Vargas.

O tucano só vai a cinema de shopping.

O tucano só vai a shopping.

O tucano freqüenta a Daslu, mesmo que seja por solidariedade às injustiças sofridas em função da ação da Justiça petista.

O tucano nem pronuncia o nome do Lula: fala Ele.

O tucano conhece o Nordeste pelas novelas da Globo.

O tucano dorme assistindo o programa do Jô.

O tucano acorda assistindo o Bom dia Brasil.

O tucano acha o Galvão Bueno a cara e a voz do Brasil.

O tucano recorta todos os artigos da página 2 da Folha para ler depois.

O tucano acha o Serra o melhor administrador do mundo.

O tucano acha Alckmin encantador.

O tucano tem ódio de Lula porque tem ódio do Brasil.

O tucano sempre acha que mereceria ter triunfado.

O tucano é mal humorado, nunca sorri e quando sorri – como diz The Economist sobre o candidato tucano - é assustador.

O tucano não tem espírito de humor. Também não tem motivos para achar graças das coisas. É um amargurado com o mundo e com as pessoas pelo que queria que o mundo fosse e não é.

O tucano considera a Barão de Limeira sua Meca.

O tucano acha o povo brasileiro preguiçoso. Acha que há milhões de “inimpregáveis” no Brasil.

O tucano acha a globalização “o novo Renascimento da humanidade”.

O tucano se acha.

O tucano pertence a uma minoria que acha que pode falar em nome da maioria.

O tucano é um corvo disfarçado de tucano.
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Foto: www.clickpb.com.br

sábado, 14 de agosto de 2010

Por que mudam?


Não estou falando de mudanças tecnológicas ou coisa que o valha. Mas de mudança de conceitos, compreensões acerca de fatos, atos, fenômenos. Pergunto-me, embora desconfie de que sei a resposta. Ou respostas. E não são mudanças ditadas pelo tempo. Claro que ele é fundamental pra que ocorram e sejam percebidas. Mas nem precisa ser longo.

Por exemplo: sou do tempo em que ser funcionário de empresas públicas federais, como o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica (Federal), era um sonho almejado por significativa parcela da classe média brasileira. Afinal, conferia-lhes reconhecimento profissional, remuneração digna, boas condições de trabalho, plano de assistência médica, etc. Os pais incentivavam os filhos a estudar para alcançarem êxito nos difíceis e respeitados concursos públicos. O país se orgulhava de suas existências, de sua importância para o desenvolvimento, do patrimônio público que representavam. Algum tempo depois, entretanto, sem que nada de substancial mudasse, esses empregos passaram a traduzir para a mídia grande sinônimo de regalias despropositadas, privilégios indecorosos, salários astronômicos. E as empresas públicas passaram a ser comparadas a dinossauros, escoadouro de dinheiro público, atraso, ineficiência e por aí vai.

Tempo vai, tempo vem, eis que as até então repudiadas empresas públicas e seus funcionários voltam a ser valorizados, reconhecida a sua importância para a economia do país. A mídia grande meio que parece ter pedido seu discurso vazio. O que mudou?

Sou do tempo, também, em que os brasileiros que lutaram contra a ditadura brasileira eram respeitadíssimos. Milhares foram torturados, centenas morreram nos porões dos sistemas construídos pela repressão. Pessoas que deram a própria vida por um ideal, invariavelmente um ideal que criam mais justo, humano, digno. Nesse nosso mundo moderno, de predomínio absoluto da individualidade e do egoísmo, a lembrança desse passado é algo que nos enche de orgulho e brio. Mas... Hoje, sabe-se lá porquê (ou sabemos?), aqueles que lutavam contra o governo militar são terroristas para a mídia grande. São terroristas aqueles que afogavam a covardia e até pegavam em armas para lutar contra a repressão, a tortura, a prisão sem mandato judicial, a prisão das mentes e das idéias contrárias ao status quo. Mas há um alento...

O alento é que o povo brasileiro vem demonstrando ter aprendido a pensar com sua própria cabeça. O que mudou? Isto parece ser o que mudou.
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Quem compra a Veja

Por Emir Sader, em http://www.cartamaior.com.br/


Em um vôo, havia uma Veja, que eu não leio, nem folheio há muitos anos. Não me interessava nada do que estava escrito ali, mas me dei ao trabalho de verificar as publicidades. Porque as publicações da mídia mercantil são vendidas para as agências de publicidade – e por estas às grandes empresas que anunciam - antes de ser vendidas aos leitores. A arrecadação com estas vendas é totalmente desprezível em comparação com o arrecadado com a publicidade.

Então é bom saber quem financia uma publicação decadente, com uma tiragem verticalmente descendente como a Veja. Saber que paga os funcionários da família Civita, saber com quem eles têm o rabo preso, ainda mais eles que se interessam tanto por saber onde o governo anuncia.

Do total de 152 páginas, 72 de publicidade – sem contas as da própria Abril. Primam os anúncios das empresas automobilísticas: 11, em geral cada anuncio em pagina dupla e algumas com vários anúncios no mesmo número. Pode chegar a um total de umas 20 páginas. Acho que não falta nenhuma do ramo: Hyundai, Citroen, Ford, Honda, Volkswagen, Citroen, Peugeot, Mercedes Benz, Chevrolet, Kia, Subaru.

Os bancos, claro: Itaú, Bradesco, HSBC. E várias outras das maiores empresas brasileiras: Votorantin, H. Stein, Gafisa, Knorr, Becel, Casas Renner, Dell, Boston Medical Care, Tv Record, Tim, Casas Bahia, Ambev, Bulova, Oral B, Shopping Center Iguatemi, Nextel, Tv Globo, Câmara Brasileira do Livro, McDonalds, Amó (perfumes), Bohemia, Racco (perfumes).

Não me dei ao trabalho de revisar a Vejinha, nesse caso a de São Paulo. Mas uma simples olhada dá para ver que a proporção é mais ou menos a mesma de publicidade no conjunto da publicação, que é de tamanho similar. Para que se tenha um critério de comparação, olhei uma revista Época – também encontrada no avião – e nela a publicidade ocupa 35 do total de 122 páginas, com os mesmos anunciantes.

Com alegria me dei conta de que não há publicidades governamentais, a não ser uma do Ministério da Saúde sobre o SUS. Isso corresponde à impossibilidade legal de publicidade no período eleitoral. Mas fica claro que, com esse elenco de grandes empresas anunciando, certamente nem necessitariam.

Como se pode ver, os rabos presos se dão, de forma direta, com grande parte dos setores empresariais mais importantes do país – a indústria automobilística em primeiro lugar, seguida pelos grandes bancos -, cujos interesses nunca se viu essa grande imprensa – que faz tudo, menos dar no tiro no próprio pé em termos de lucros – contrariar.

Aí está a lista dos que financiam a Veja e a Abril. Muito antes de que algum desavisado compre nas bancas ou responda positivamente as ofertas de assinatura – que insistem em oferecer muitos números grátis, “sem compromisso”, etc., etc., no desespero da queda brutal de tiragem da revista -, praticamente metade dos espaços já foi vendido para publicidade de grandes empresas privadas. Não há nenhuma universidade pública, nem sindicato ou central sindical, movimentos sociais, editoras pequenas e médias. O financiamento vem maciçamente dos que dominam a economia do Brasil ao longo de muitas décadas, que controlam os espaços fundamentais da imprensa privada brasileira.