F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O governo LULA, por Ariano Suassuna


"O maior avanço político no Brasil ocorreu nos oito anos do governo Lula.

Você não sabe a humulhação que eu sentia pela dívida do Brasil ao FMI. Olha, o presidente brasileiro não tinha condições de escolher um ministro que não fosse aprovado pelo FMI. O FMI tinha o direito de vetar. Agora, o Brasil pagou a dívida e o FMI está devendo à gente. E Lula disse: 'Já pensou que coisa chique, o FMI está devendo ao Brasil.' Foi para o povo brasileiro recuperar a autoestima.

Lula baixou o número de pessoas que viviam na miséria. Ele baixou de 34% para 18%. Ele, Lula. E o percentual deve estar mais baixo ainda porque esses dados são do ano passado.

Eu morria de vergonha do governo Fernando Henrique. Bastava dar um chapéu de doutor para ele entregar tudo.

Eu votei no Lula em todas as vezes e não me arrependo. Escrevi, falei em comício, fiz o diabo. O que eu posso fazer eu faço. Eu não tenho poder político, nem econômico, nem nenhum outro, mas tenho uma língua afiada que só a peste, e ela está a serviço do meu país."
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Ariano Suassuna, em entrevista ao repórter Fernando Coelho, publicada no jornal Gazeta de Alagoas, edição impressa de 29/08/2010 (domingo), em resposta à pergunta abaixo:

"Recentemente o senhor esteve com o presidente Lula e a candidata à Presidência Dilma Rousseff num evento de campanha em Garanhuns, terra natal de Lula, aliás. Como o senhor avalia seus oito anos de governo?

Foto: Ricardo Lêdo, em Gazeta de Alagoas

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O que é um tucano?

Por Emir Sader, em www.cartamaior.com.br
Avis rara, animal político com grave risco de extinção, o tucano se diferencia dos outros animais. Identifiquemos suas características, antes que seja tarde demais:
O tucano tem certeza que tem razão em tudo o que diz e faz.

O tucano lê a Folha de São Paulo cedinho e acredita em tudo o que lê.

O tucano nunca foi à América Latina, considera o continente uma área pré-capitalista e, portanto, pré-civilizatória.

O tucano considera a Bolívia uma espécie de aldeia de xavantes e a Venezuela uma Albânia.

O tucano nunca foi a Cuba, mas achou horrível.

O tucano foi a Buenos Aires (fazer compras com a patroa), mas considera a Argentina uma província européia.

O tucano considera FHC merecedor de Prêmios Nobel – da Paz, de Literatura, de física, de química, quaisquer.

O tucano considera o povo muito ingrato, ao não reconhecer o bem que os tucanos – com FHC à cabeça - fizeram e fazem pelo país.

A cada derrota acachapante, o tucano volta à carga da mesma maneira: ele tinha razão, o povo é que não o entendeu.

O tucano acha o povo malcheiroso.

O tucano considera que São Paulo (em particular os Jardins paulistanos) o auge da civilização, de onde deve se estender para as mais remotas regiões do país, para que o Brasil possa um dia ser considerado livre da barbárie.

O tucano mora nos Jardins ou ambiciona um dia morar lá.

O tucano é branco ou se considera branco.

O tucano compra Veja, mas não lê. (Ele já leu a Folha).

O tucano tem esperança de retomar o movimento Cansei!

O tucano tem saudades de 1932.

O tucano venera Washington Luis e odeia Getúlio Vargas.

O tucano só vai a cinema de shopping.

O tucano só vai a shopping.

O tucano freqüenta a Daslu, mesmo que seja por solidariedade às injustiças sofridas em função da ação da Justiça petista.

O tucano nem pronuncia o nome do Lula: fala Ele.

O tucano conhece o Nordeste pelas novelas da Globo.

O tucano dorme assistindo o programa do Jô.

O tucano acorda assistindo o Bom dia Brasil.

O tucano acha o Galvão Bueno a cara e a voz do Brasil.

O tucano recorta todos os artigos da página 2 da Folha para ler depois.

O tucano acha o Serra o melhor administrador do mundo.

O tucano acha Alckmin encantador.

O tucano tem ódio de Lula porque tem ódio do Brasil.

O tucano sempre acha que mereceria ter triunfado.

O tucano é mal humorado, nunca sorri e quando sorri – como diz The Economist sobre o candidato tucano - é assustador.

O tucano não tem espírito de humor. Também não tem motivos para achar graças das coisas. É um amargurado com o mundo e com as pessoas pelo que queria que o mundo fosse e não é.

O tucano considera a Barão de Limeira sua Meca.

O tucano acha o povo brasileiro preguiçoso. Acha que há milhões de “inimpregáveis” no Brasil.

O tucano acha a globalização “o novo Renascimento da humanidade”.

O tucano se acha.

O tucano pertence a uma minoria que acha que pode falar em nome da maioria.

O tucano é um corvo disfarçado de tucano.
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Foto: www.clickpb.com.br

sábado, 14 de agosto de 2010

Por que mudam?


Não estou falando de mudanças tecnológicas ou coisa que o valha. Mas de mudança de conceitos, compreensões acerca de fatos, atos, fenômenos. Pergunto-me, embora desconfie de que sei a resposta. Ou respostas. E não são mudanças ditadas pelo tempo. Claro que ele é fundamental pra que ocorram e sejam percebidas. Mas nem precisa ser longo.

Por exemplo: sou do tempo em que ser funcionário de empresas públicas federais, como o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica (Federal), era um sonho almejado por significativa parcela da classe média brasileira. Afinal, conferia-lhes reconhecimento profissional, remuneração digna, boas condições de trabalho, plano de assistência médica, etc. Os pais incentivavam os filhos a estudar para alcançarem êxito nos difíceis e respeitados concursos públicos. O país se orgulhava de suas existências, de sua importância para o desenvolvimento, do patrimônio público que representavam. Algum tempo depois, entretanto, sem que nada de substancial mudasse, esses empregos passaram a traduzir para a mídia grande sinônimo de regalias despropositadas, privilégios indecorosos, salários astronômicos. E as empresas públicas passaram a ser comparadas a dinossauros, escoadouro de dinheiro público, atraso, ineficiência e por aí vai.

Tempo vai, tempo vem, eis que as até então repudiadas empresas públicas e seus funcionários voltam a ser valorizados, reconhecida a sua importância para a economia do país. A mídia grande meio que parece ter pedido seu discurso vazio. O que mudou?

Sou do tempo, também, em que os brasileiros que lutaram contra a ditadura brasileira eram respeitadíssimos. Milhares foram torturados, centenas morreram nos porões dos sistemas construídos pela repressão. Pessoas que deram a própria vida por um ideal, invariavelmente um ideal que criam mais justo, humano, digno. Nesse nosso mundo moderno, de predomínio absoluto da individualidade e do egoísmo, a lembrança desse passado é algo que nos enche de orgulho e brio. Mas... Hoje, sabe-se lá porquê (ou sabemos?), aqueles que lutavam contra o governo militar são terroristas para a mídia grande. São terroristas aqueles que afogavam a covardia e até pegavam em armas para lutar contra a repressão, a tortura, a prisão sem mandato judicial, a prisão das mentes e das idéias contrárias ao status quo. Mas há um alento...

O alento é que o povo brasileiro vem demonstrando ter aprendido a pensar com sua própria cabeça. O que mudou? Isto parece ser o que mudou.
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Quem compra a Veja

Por Emir Sader, em http://www.cartamaior.com.br/


Em um vôo, havia uma Veja, que eu não leio, nem folheio há muitos anos. Não me interessava nada do que estava escrito ali, mas me dei ao trabalho de verificar as publicidades. Porque as publicações da mídia mercantil são vendidas para as agências de publicidade – e por estas às grandes empresas que anunciam - antes de ser vendidas aos leitores. A arrecadação com estas vendas é totalmente desprezível em comparação com o arrecadado com a publicidade.

Então é bom saber quem financia uma publicação decadente, com uma tiragem verticalmente descendente como a Veja. Saber que paga os funcionários da família Civita, saber com quem eles têm o rabo preso, ainda mais eles que se interessam tanto por saber onde o governo anuncia.

Do total de 152 páginas, 72 de publicidade – sem contas as da própria Abril. Primam os anúncios das empresas automobilísticas: 11, em geral cada anuncio em pagina dupla e algumas com vários anúncios no mesmo número. Pode chegar a um total de umas 20 páginas. Acho que não falta nenhuma do ramo: Hyundai, Citroen, Ford, Honda, Volkswagen, Citroen, Peugeot, Mercedes Benz, Chevrolet, Kia, Subaru.

Os bancos, claro: Itaú, Bradesco, HSBC. E várias outras das maiores empresas brasileiras: Votorantin, H. Stein, Gafisa, Knorr, Becel, Casas Renner, Dell, Boston Medical Care, Tv Record, Tim, Casas Bahia, Ambev, Bulova, Oral B, Shopping Center Iguatemi, Nextel, Tv Globo, Câmara Brasileira do Livro, McDonalds, Amó (perfumes), Bohemia, Racco (perfumes).

Não me dei ao trabalho de revisar a Vejinha, nesse caso a de São Paulo. Mas uma simples olhada dá para ver que a proporção é mais ou menos a mesma de publicidade no conjunto da publicação, que é de tamanho similar. Para que se tenha um critério de comparação, olhei uma revista Época – também encontrada no avião – e nela a publicidade ocupa 35 do total de 122 páginas, com os mesmos anunciantes.

Com alegria me dei conta de que não há publicidades governamentais, a não ser uma do Ministério da Saúde sobre o SUS. Isso corresponde à impossibilidade legal de publicidade no período eleitoral. Mas fica claro que, com esse elenco de grandes empresas anunciando, certamente nem necessitariam.

Como se pode ver, os rabos presos se dão, de forma direta, com grande parte dos setores empresariais mais importantes do país – a indústria automobilística em primeiro lugar, seguida pelos grandes bancos -, cujos interesses nunca se viu essa grande imprensa – que faz tudo, menos dar no tiro no próprio pé em termos de lucros – contrariar.

Aí está a lista dos que financiam a Veja e a Abril. Muito antes de que algum desavisado compre nas bancas ou responda positivamente as ofertas de assinatura – que insistem em oferecer muitos números grátis, “sem compromisso”, etc., etc., no desespero da queda brutal de tiragem da revista -, praticamente metade dos espaços já foi vendido para publicidade de grandes empresas privadas. Não há nenhuma universidade pública, nem sindicato ou central sindical, movimentos sociais, editoras pequenas e médias. O financiamento vem maciçamente dos que dominam a economia do Brasil ao longo de muitas décadas, que controlam os espaços fundamentais da imprensa privada brasileira.