F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A bolinha

Manhã fria de outono. Capital dos EUA. Aos poucos, os representantes das principais polícias do mundo ingressavam, carrancudos e preocupados, no antigo mas ainda conservado e imponente Edifício J. Edgard Hoover. Logo que cheguei na antessala do diretor senti o cheiro do café fresco misturado à atmosfera densa. Aqui e ali identificava um outro, de suor ou de naftalina, proveniente, certamente, de algum chefe de polícia estrangeiro, quem sabe francês — que sua fama não deve advir de mera fofoca.

O fumo era excepcionalmente ali permitido. A gravidade da situação tornou irrelevante a questão dos malefícios do cigarro ao ser humano, incluídos nós, os policiais, claro, que seres humanos também o somos. Perguntei em meu inglês sofrível à mocinha que o servia a origem da bebida — tão agradável ao olfato e, depois constatei (aí já emocionado), também ao paladar. Do Brasil, respondeu-me. Puxa, por alguns segundos esqueci-me da difícil missão que me fora confiada por meu país e recordei-me das aves que lá gorjeavam — que não gorjeiam como as daqui —, das nossas verdes matas, cachoeiras e cascatas de colorido sutil, e daquele lindo céu azul de anil...

Subitamente fui trazido à realidade pelo empurrão do chefe de polícia alemão — a delicadeza não é mera coincidência —, que me lembrava já iria iniciar-se o encontro onde talvez o destino do mundo que hoje conhecemos seria decidido. Não entendi nada do que me disse, mas pela, digamos, ênfase do seu convite preferi acompanhá-lo.

Nem bem adentrei, os olhares a mim se voltaram. Tão ansiosos quanto preocupados. A razão: afinal, que poder letal poderia ter aquela nova arma? Como pode um objeto até então inofensivo ser capaz de provocar dano em alguém? Por que a vítima só veio a sentir a terrível dor cerca de quinze minutos depois, após uma ligação de celular? Esperavam de mim uma resposta... Infelizmente, porém, não a tinha. De certo, apenas, que um dos dois candidatos a presidente do Brasil fora atingido na careca por uma bolinha de papel, e surpreendentemente, metade de hora depois, sentira forte dor, por alguma desconhecida combinação entre o impacto provocado pela inocente bolinha e ondas radiativas provenientes do seu aparelho celular.

O mundo não estava preparado para a simplicidade da novel arma. Fosse a vítima da bolinha um Zé Ninguém, talvez houvesse morrido e nada saberíamos. Mas como foi o Zé Serra, temos uma chance de descobrir e salvar a humanidade. Pra isso estou aqui. Em Washington, D. C..
________________

Nenhum comentário: