F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A vaca está muito viva*

*Tb. pub. no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL (em 28.01.2015)

Nada surpreendente a reação de parcela do eleitorado aecista, ou pessedebista, escudando-se na porção impopular das medidas econômicas da novel equipe do governo federal reeleito para tripudiar dos que lhe venceram. Na verdade, reforça no eleitor vencedor mais alinhado à cruel realidade do capital, enfiada goela’dentro deste país no decorrer dos anos de sua história, a importância em que se traduziu a vitória da atual presidenta, ou a derrota do candidato da oposição, o pior em muitos anos. Explico meu singelo pensar, ainda que sucintamente, como sói o permite o diminuto espaço.

Ora, não se discute a dureza de algumas medidas adotadas, mas tampouco é de se espantar o tenham sido, afinal produzidas no centro de uma política monetarista erigida para fazer frente à parte mais fragilizada da política econômica anterior, naturalmente imperfeita como o é a de hoje, uma vez nascida e desenvolvida dentro de um mundo capitalista cujos fracassos se mostram evidentes a quem tem olhos para ver, e que vive sua maior crise desde a de 1929. Ao eleitor vencedor, petista ou pecedobista ou apenas simpatizante a um desses partidos ou aos governos de Lula e Dilma, cumpre deixar a inocência de lado, apoiar o que deve mereça sê-lo (inclusive o avanço em que continua a se traduzir o governo eleito), sem embargo de criticar e opor-se ao que assim o mereça, obstaculizando o retrocesso ou reduzindo-o, especialmente no campo dos direitos sociais e trabalhistas.

Particularmente, não guardo expectativas positivas de uma política econômica conduzida nos moldes já anunciados. A indústria, talvez o setor mais ressentido pela política do primeiro mandato, deverá mesmo, arvoro-me o direito de acreditar com base na prática do passado, enfronhar-se com sua fome voraz no exercício do lucro pela especulação do capital, e não da produção. Mas o tempo dirá por quanto tempo viveremos a experiência ditada pela nova equipe econômica.


De qualquer sorte, essas medidas ditas impopulares tão exploradas pela “grande imprensa” economicamente desregulada e irresponsável por seus atos (ela ainda o maior “partido” de oposição), patética e pretensamente transformadas em “discurso de vingança” pelos derrotados de plantão, além de reiterar a falta de substância do discurso adversário, vem a corroborar, no íntimo de cada eleitor vencedor, a compreensão do desastre de que este país escapou fosse eleito o sofrível candidato dos tucanos. Se é que a vaca tossiu, regozije-se: ao menos está viva.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Fé na hipocrisia

www.cafecomamigos.com.br
*Tb pub. no jornal GAZETA DE ALAGOAS e postado nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL, em 21/01/2015

O Brasil se orgulha por ser um dos muitos países que abominam a pena de morte. A propaganda midiática o divulga como um país simpático, acolhedor, generoso, de maioria católica, desprovido de preconceito e racismo, de cor ou social. Somente aboliu a escravidão, oficialmente, em 1888, com o advento da Lei Áurea, portanto há 127 anos. Embora, sempre oficialmente, tenha sido descoberto por Cabral há 515 anos. Mas como a escravidão no Brasil somente teve início, oficialmente, na primeira metade do séc. XVI, portanto por volta dos anos 1500-1550, justamente com o advento da produção de açúcar (que coincidência, Alagoas), pode-se dizer que a escravidão no país durou, oficialmente, cerca de 370-380 anos. Ano pra dedéu, hein? É que se fosse pela direita brasileira, representada pelo poder econômico de então, baluarte na luta em favor da mantença da barbárie escrava para a salvação de seu rico dinheirinho, sujo com a dor, suor e sangue dos negros, a abolição foi um terrível mal para o país.

A escravidão no Brasil, porém, ainda não acabou. Sabe-se de vários casos que deixaram estarrecidos os brasileiros. É que para boa parte desses, tão amáveis e tementes a Deus, a escravidão é inadmissível. A pena de morte também. Naturalmente que em se tratando de um cabra preto, lascado, nascido e criado num dos muitos infernos que ainda existem no país, e que reproduz sua origem desgraçada assaltando, quando não assassinando, integrantes da sociedade branca e limpa do Brasil, uma mortezinha bem matada é merecida. Nem que seja na baixa. Vai lá e pum! Menos uma escória.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Não sou Charlie*


*Tb pub. no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL

Este mundo é mesmo prenhe de hipocrisia, manipuladores e manipulados. Nessa esteira, parte da elite de meu país, que assim se imagina porque desconhece o que seja sê-lo, bem como de sua classe média, investe-se escancaradamente desses atributos.

Nesses últimos dias, dois fatos me inspiraram a vir derramar-lhes algumas tintas, pobres que sejam.

O primeiro, o da máfia das próteses. Não encontrei uma só manifestação de repúdio minimamente séria das associações de médicos contra esses marginais, tampouco dos aecistas de plantão. Vi-os, sim, omissos, como só os capitães da hipocrisia deslavada sabem ser. Sua indignação oca só existe contra os médicos cubanos, trazidos para cuidar de quem eles jamais se dispuseram a fazê-lo.

O outro, trata-se do ato terrorista contra a revista francesa Charlie Hebdo e seus cartunistas, infelizmente bandeira para manipulação hipócrita, capitaneada pela chamada mídia grande e repercutida por seus amestrados seguidoresconscientes ou nãoA tônica é explorar a tragédia, na defesa de algo que querem transformar em dogma: a liberdade de expressão, propositadamente confundida com liberdade de imprensa, como se alho e bugalhos fossem a mesma coisa.

Sabia que a Charlie Hebdo primava pelo humor polêmico e politicamente incorreto, para alguns de péssimo gosto, para outros corajoso. Entretanto, hoje limita-se a professar o que diz combater, intolerância religiosa, desrespeitando crenças e símbolos que são caros aos por ela atingidos com seu tipo de humor. Na decadente sociedade e cultura francesas, a religião islâmica, abraçada por mais de 6 milhões de muçulmanos naquele país, é seu alvo predileto. Há quem a compare com o Pasquim brasileiro. Injustiça. Abstraindo o “humor”, está mais para a Veja. Ambas precisariam ser coibidas pela justiça. Lá, na França, a Charlie não o foi; aqui, a Veja não o é. Cada qual a seu modo, ofendem, caluniam, desrespeitam e seguem sem limites no exercício de sua ilimitada liberdade de expressão. Até que surge um fanático, e de fanáticos este mundo também está prenhe, embora menos do que de hipócritas falso moralistas, e a tragédia está pronta para ser explorada pelos surpreendidos de meia-tigela.

Repudio veementemente o ato que vitimou os cartunistas, e me solidarizo com seus familiares; nada o justifica. Nem uma só peça de seu humor sem limites os faz merecedores do que sofreram. Mas esse humor está longe de ter o meu respeito. Por isto, não sou Charlie.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A inveja não veste Prada*

http://noticias.bol.uol.com.br/
*Tb pub. no jornal GAZETA DE ALAGOAS e nos sítios Pragmatismo Político e PCdoB/AL

Não consigo desvincular a figura da autoridade, da mulher nela investida, ou da roupa em que vestida. Aliás, não pactuo com a ridicularização da aparência do outro, antes sinto indisfarçável repugnância. Assim me ensinaram desde criança, assim cresci ouvindo. Se assim pensar não for moderno, nessa época em que velho conta tão pouco, e muitas mulheres, e homens, não respeitam sequer a si próprios, paciência.

Particularmente assisti à posse presidencial da candidata reeleita, e embora não seja conhecedor de moda, o que vi foi uma senhora de quase setenta anos de idade, já avó, e presidenta do meu país, que mais do que envergar uma faixa presidencial ou vestir uma roupa que pessoalmente me pareceu adequada, embora isto pouco importe, estava lá prestigiada por mais da metade do povo brasileiro, que nela depositou suas esperanças e convicções, além de referendar-lhe a aprovação ao mandato que findava, bem assim pelas mais importantes e representativas autoridades internacionais e nacionais.

Vi, principalmente, uma mulher já idosa sendo condecorada como a mais importante do meu país e da América Latina, e uma das mais do mundo inteiro. Vi uma senhora que poderia ser a minha mãe, ou a mãe de minha mulher, ou a mãe de qualquer amigo meu, ou a mãe da Paula, como de fato o é. Sob esse aspecto, isto apenas o que vi.

Como se tratava de uma mulher de quase setenta anos, mãe e avó, e então empossada presidente da república do Brasil, não poderia, ali, nutrir qualquer expectativa de que fosse me deparar com uma miss presidencial, ou malhadora compulsiva de academia de ginástica, ou consumidora contumaz de whey protein e outras coisitas do gênero. Sequer de uma mulher dentro do peso prescrito pela endocrinologista ou nutricionista de plantão. Esperava apenas que a presidenta em que depositei meu voto pela segunda vez estivesse vestida com respeito ao meu país e ao seu povo. E assim ela estava. Irretocavelmente. Como sempre.


Não ia tocar nesse assunto, nem vou citar aqui as “celebridades” de meia-pataca que comportando-se no nível rasteiro da sua (des)educação contribuíram para aprimorar aquel’outra, dos grosseiros e grosseiras do meu país. Mas resolvi escrever essas poucas linhas porque quando os vejo agir tão desrespeitosamente com uma senhora, fazendo coro ao discurso patético da inveja inescondível, vejo-me impregnado de um dos mais desconfortáveis sentimentos conhecidos pelo ser humano, donde urge regurgitá-lo: vergonha. Depois, sorrio.