F R A S E

SÃO OS COMUNISTAS OS QUE PENSAM COMO OS CRISTÃOS” - Papa Francisco

sábado, 9 de julho de 2016

Respeitem a democracia*


http://www.controversia.com.br/ 
Outro dia estava aqui refletindo com meus teimosos botões. Devaneios tolos, claro.

Desde o dia da aclamação de sua re-eleição a presidenta teve seu mandato contestado. Sofreu campanha diária movida pela oposição derrotada, pautada pelos principais grupos midiáticos do país e pela Operação Lava Jato — que a despeito de sua importância serviu, não raro, ao objetivo político de desgastar o PT, Lula e o governo. No centro (politicamente à direita), um cavalo de troia, Eduardo Cunha. Em suas entranhas, partidos fisiológicos. Contrariado pelo PT — que conferiu os votos faltantes para o seu processamento pela Comissão de Ética ―, EC aceita um pedido de impeachment fundado em fatos que NÃO se configuram crime de responsabilidade, alguns dos quais sequer praticados pela presidenta (o Plano Safra, as tais pedaladas fiscais). Iniciou-se o golpe. Qualquer um, intelectualmente honesto, sabe que o é. EC chantageou, perdeu e se vingou. Aos 17/04, a Câmara — num espetáculo macabro e vergonhoso —, admite o processo e o envia ao Senado. O julgamento, propriamente dito. Montesquieu remexe-se.

Antes do meliante-psicopata aceitar o pedido de impeachment, aos 15/12/2015 a PGR pede ao STF o seu afastamento. O ministro Teori, inexplicavelmente, demora quase cinco meses para deferi-lo, embora afirme que EC é “um pejorativo que conspira contra a própria dignidade da instituição por ele liderada.” A omissão do STF, aliada ao comportamento inadequado de alguns de seus pares, entre outros atos (prisão imediata de Delcídio e silêncio quanto a Jucá, e obstrução da posse de Lula são exemplos), despertam na sociedade a desconfortável suspeita de parcialidade. Montesquieu fere os pés, joelhos e cotovelos, retorcendo-se.

Esfacelou-se o seu sistema de freios e contrapesos. O legislativo usurpa um mandado popular legitimamente conferido ao chefe de outro poder, o executivo. O judiciário, que deveria guardar a Carta, assiste, sem pudor e reação, à sua desonra e o assassínio do estado de direito. A democracia agoniza.

Ocorre que a presidenta, embora afastada, continua presidenta. O golpe é manifesto, mas ainda inconcluso. A Suprema Corte, ou o Senado, podem repeli-lo. Mas e se não o fizerem? Deve a vítima resignar-se? Seria legítima eventual resistência? Teria condições objetivas, instrumentos e vontade política para fazê-lo?

Bem, meros devaneios que sejam (e são), barbas de molho. Não se avilta a democracia.

*Escrito em 13.06.2016

O golpe não é surreal*



http://altamiroborges.blogspot.com.br/
 1983-1984. O país saía da ditadura militar e o povo, na generalidade de suas classes sociais, clamava nas ruas por eleições diretas. Parecíamos, então, todos democratas (ou quase todos, claro). A Emenda das Diretas Já (Emenda Dante de OIiveira), porém, foi rejeitada pelo Congresso.


Assim, as primeiras eleições diretas para presidente, após o regime ditatorial, somente se dariam no ano de 1989, sob a vigência da nova Constituição do país, promulgada em 1988.


Três eleições se sucederam. As esquerdas foram derrotadas em todas. Até que em 2002, Lula vence. E novamente a de 2006. E elege a sua sucessora, Dilma Rousseff, na eleição de 2010, que por sua vez reelege-se em 2014.


Desde quando eleitos (Lula até desde antes), são diuturnamente atacados pela grande mídia nacional. Tiveram a oportunidade de democratizar e regulamentar os meios de comunicação, a exemplo dos EUA e a própria Grã-Bretanha. Não o fizeram. Mal tentaram. Ou foram muito ingênuos, de pensar que esse pessoal algum dia lhes daria trégua, ou se acovardaram. Seu maior erro. Subestimaram a força de uma imprensa milionária, que mente e manipula para salvaguardar seus interesses. Há uma só voz. Não há democracia na mídia brasileira.


Em seus governos (2002-2015), o PIB saltou de R$ 1,48 trilhão para R$ 5,90 trilhões; o PIB per capita, de R$ 7,6 mil, para R$ 28,8 mil; a dívida líquida do setor público, de 60% do PIB, para 33,6% do PIB; o lucro do BNDES, de R$ 550 milhões, para R$ 6,20 bilhões; o do BB, de R$ 2 bilhões, para R$ 14,40 bilhões... Todas as classes sociais ganharam com esses governos. A mais pobre mais. Natural.


A liberdade de expressão e manifestação foi garantida. Os principais instrumentos de combate a corrupção foram nesses governos criados. E junto com as instituições já existentes (MPF e PF), puderam atuar livremente pela primeira vez em suas histórias. Entretanto, ignorantes ou mal intencionados usaram essa liberdade para ir às ruas exigir sua saída. Não são democratas. Não respeitam a democracia, embora decerto os mais velhos lá estivessem pedindo Diretas Já em 1984.



À cínica alegação de prática de crime de responsabilidade, a presidenta eleita pelo povo foi apeada do poder por uma maioria prenhe de cabras de peia. Toda sorte de injustiças e ilegalidades lhe têm sido impingidas, inclusive pelo próprio judiciário. O país, sob esse governo interino, é uma afronta à dignidade e à cidadania. Beira o surreal. Mas é real. Porque o golpe é real.

*Escrito em 06.06.2016