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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Sobre melanina, barbárie e covardia

Nessa época em que as informações são tão rápidas quanto imprecisas ou superficiais, quando não enganosas, já acometido de velhice está o assunto que lhes trago. Mas vou a ele, mesmo assim, porque devo sair em defesa, ainda que tardiamente, daqueles valorosos servidores, e em última análise, de nós mesmos.

O diabo é que ela tinha melanina em excesso, ora bolas! Aí, já não sendo uma de nós, e não é, qualquer um sabe disso — pelo menos fosse parda... —, e se atrevendo a exercer uma das mais nobres profissões, senão a mais, eis que ela não se dá por satisfeita e foi exigir — pasmem, exigir! — que o direito de sua cliente fosse respeitado, e o seu próprio, enquanto advogada, apenas porque a lei assim o prevê. Afrontando uma juíza branca! Leiga, tá certo, mas branca! Onde vamos parar, a continuarem as coisas assim?

Então devo pensar que a criatura não sabia o seu lugar? Que era ignorante? Quá-quá-quá! Que nada! Sabe e sabia, sim. É que é atrevida e insolente demais.

Depois li comentários de que os nobres policiais teriam agido com excesso, e até contra a lei e contra súmula vinculante que proibiria a colocação de algemas nessas situações. Assim também, ao arrepio da lei, teria se comportado a alva juíza leiga (era alvinha, alvinha a pobre moça), de quem teria partido a ordem, depois de perder a paciência com a insubordinada. Claro, quem não perderia? Acho até que foi parcimoniosa.

Acompanhe comigo. Os policiais não a surraram, nem a arrastaram pelo fórum, sequer uns beliscões ou uns “telefones” a insolente sofreu. Limitaram-se, civilizadamente, a derrubá-la no chão, com uma cuidadosa rasteira por trás, e algemá-la. Isto porque a diaba negra insistia em exercer o seu direito, para o qual, aliás, fora contratada.  O que teriam de fazer, a magistrada sem toga e a polícia? Aceitar? Ah, companheiro, no dos outros é refresco...

Depois vim a tomar conhecimento de que colegas advogados honrados e com baixo teor de melanina estariam sendo atacados porque quedaram-se omissos, não socorrendo a besta fera preta, nem por discreta intervenção em seu favor. Segundo alguns, os nobres causídicos teriam sido covardes e desonrado a profissão cidadã. Valham-me os céus! Onde nós estamos e, pior, onde vamos chegar? Então nós, que temos a pele clara certamente por desígnios nobres e celestes, deveríamos nos intrometer em favor da insolente que definitivamente não sabe o lugar dela? Já não basta ter conseguido o diploma? Por que — e é essa a pergunta que esses devem se fazer — ela, ela mesma, não se deu por satisfeita com o que conseguiu e se colocou no seu lugar de, de, advogada, digamos, preta?

Olha, felizmente agora a gente já pode sair do armário e não usar mais de hipocrisia. Os tempos estão mudando. Hoje já temos alguém para nos inspirar e liderar. Afinal, somos a maioria, e a minoria que se adeque a nós.


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